segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Memórias de um Filho de Bucos: O Eco das Cantigas na Minha Vida

Nasci em 1947, no seio de uma terra onde a música e a identidade se confundem com a própria alma das pessoas. Sou filho de uma das cantadeiras do Rancho Etnográfico "As Capuchinhas de Bucos", um grupo emblemático que, entre os anos de 1938 e 1945, levou o nome e as tradições da nossa aldeia bem longe. Cresci a saber que a minha mãe e as suas companheiras tinham feito história. Ficou registado nos escritos da época o orgulho com que o Rancho, conjuntamente com o Grupo do Jogo do Pau de Bucos, participou na receção oficial ao Dr. António de Oliveira Salazar, em Braga. Também a história do célebre concurso da "Aldeia Mais Portuguesa de Portugal", em 1938, guarda a memória escrita do brilho que elas levaram ao abrilhantamento de Carrazedo de Bucos. Mas, para mim, o verdadeiro maior espetáculo acontecia dentro das nossas quatro paredes e nos campos da nossa infância. Como filho de uma cantadeira, cresci embalado por uma banda sonora permanente. Lá em casa, todos os momentos eram bons para cantar: cozinhava-se a cantar, varriam-se os salões a cantar, e o trabalho duro da terra — fosse na apanha dos feijões, das batatas ou das couves, fosse no caminho de ida e volta para ir buscar a água — era sempre aliviado pela força da voz. Naquela época, ouvi e cansei-me de ouvir modas que ficaram gravadas a ferro e fogo na minha memória. Canções de trabalho, de romance e de romaria, tais como:Ó Ciranda, O Pezinho, Ao Passar o Ribeirinho, Ao Senhor da Serra, No Alto Daquela Serra, Videirinha Chora, Alecrim, Barqueiro, Ó Rosa, Ó Padeirinha Formosa, Ó José Aperta o Laço, Não Quero que Vás à Monda, Ó Margarida Moleira, Trai Trai, Ó Fresca da Ramalhada, Laranja, Laranja e o Limão, Água Leva o Regadinho, Josezito, Chula, Ó Ana, Vareira, Cana Verde, Malhão, Mariazinha é Tecedeira, Dobadoira, Ó Tirana, Verdegar, Verde Gaio, Vida que Vira, Ó Ferreiro Guarda a Filha e Ribeira Vai Cheia. O tempo passou, a vida correu e, passados 50 ou 60 anos, o cancioneiro da minha mente continuou a crescer, acolhendo outras modas que se juntaram à nossa identidade, como:O Mar Enrola na Areia, Eram pra aí Sete e Pico, Tim Tim Nós Somos de Bucos, Carrazedo Linda Terra e Ia por aí Abaixo. Estas são as canções de que me lembro no momento. Mais do que simples letras ou melodias, elas são o retrato de um tempo, a herança da minha mãe e a prova viva de que Bucos sempre soube cantar a sua própria história. Deixo-as aqui registadas, para que o tempo não as apague e para que os vindouros saibam como era bonita a nossa terra.

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