sábado, 31 de outubro de 2026

As Aves na Casa Rural de Sanoane de Cima - Bucos

A vida na Casa de Sanoane de Cima, em Bucos, Cabeceiras de Basto, desenha-se diariamente ao ritmo e ao canto das muitas aves que fazem da propriedade o seu refúgio. Cada canto do jardim, cada árvore e cada parede guardam uma história de convivência perfeita entre a ruralidade da casa agrícola e a simplicidade da vida selvagem.
Logo pela manhã, a rotina começa junto à água. À volta do tanque, a ágil lavandisca repete o seu ritual diário, caminhando e observando com atenção para pescar os pequenos insetos que caíram na superfície durante a noite.
No solo fresco do jardim, o movimento é constante. O melro de bico amarelo partilha o terreno com a pacata rola, o pombo, a imponente poupa e os pequenos pardais, todos empenhados na busca minuciosa por alimento entre a erva.
As velhas paredes da casa servem de porto seguro para o pedreiro,(chasco) que ali faz os seus pousos estratégicos, vigiando o horizonte. Já nos muros que delimitam o terreno, é a minúscula e viva carriça que encontra o seu abrigo ideal, esgueirando-se entre as pedras.
Quando chega o tempo dos figos, as figueiras próximas da casa transformam-se num autêntico banquete e num festival de cores e sons. O gaio, o melro, o estorninho, o tordo e o vistoso papa-figos disputam os frutos mais maduros, acompanhados de quando em vez pelo verdilhão e pelo persistente pardal.
Nas árvores em redor, o som compassado do pica-pau-verde ecoa pelos troncos, enquanto nos céus as andorinhas cruzam o ar com voos velozes e rasantes, enchendo o espaço de vida antes de prepararem a sua partida.
Embora o cenário atual seja de uma enorme biodiversidade, a memória viaja inevitavelmente até aos tempos de infância, trazendo a doce recordação de espécies que outrora eram presença assídua e marcante por aqui, como o vibrante pintassilgo, o afável pisco-de-peito-ruivo e a discreta toutinegra. Fica o registo desta fauna magnífica, que continua a escrever o presente da Casa Rural de Sanoane de Cima

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Bucos e Origem do próprio Nome

Uma das questões que merece reflexão é a origem do próprio nome Bucos. Seguindo investigadores, poderá estar relacionado com teses botânica, geográfica ou antigas designações associadas à pastorícia e à criação de caprinos. A tese Botânica (Buxos \(\rightarrow \) Bucos), como defende José Pedro Machado. A tese que faz derivar Bucos do latim Buxus (a planta do buxo) assenta na evolução fonética natural da língua portuguesa. Ao longo dos séculos, a transição do som "x" (sh) para o som "c" (k) foi comum em vários regionalismos e dialetos minhotos (buxo \(\rightarrow \) buco), reforçando a ideia de que a freguesia nasceu simplesmente num "buxal" (mata de buxos). José Pedro Machado refere também uma alternativa "Alternativa Pré-Romana". Noutras notas sobre topónimos homónimos (como Buco), Machado propõe que o termo possa derivar de uma raiz celta associada a "tronco" ou "coto" (uma zona florestal desbravada, cheia de cepos). Ambas as ideias de Machado apontam para uma origem fitonímica (ligada à vegetação), para mim menos consistente, que a primeira. A tese geografica (o abrigo no "buraco" do vale) e a história económica antiga (o local, abrigo do gado e dos pastores), importante e a considerar A palavra italiana buco significa, na sua aceção corrente, «buraco» ou «abertura». Estas diferentes visões mostram que a resposta exata divide-se entre a botânica (a abundância da planta) e a geografia. Por isso, a origem do nome poderá, contudo, revelar-nos pistas importantes sobre a antiguidade da povoação e a relação das suas gentes com o território.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Bucos e a sua História

Das origens ancestrais à comunidade rural de São João Batista de Bucos A história de Bucos perde-se no tempo. Embora não seja possível determinar com exatidão quando surgiu o primeiro núcleo populacional, há razões para admitir que a ocupação humana destas terras possa ser muito antiga, anterior à própria formação de Portugal. A geografia da região, os seus montes, os pastos naturais, a abundância de recursos e as condições favoráveis à criação de gado terão contribuído para a fixação das primeiras comunidades. Uma das questões que merece reflexão é a origem do próprio nome Bucos. Poderá estar relacionado com antigas designações associadas à pastorícia e à criação de caprinos. A palavra italiana buco significa, na sua aceção corrente, «buraco» ou «abertura». A tese Botânica (Buxos \(\rightarrow \) Bucos), como defende José Pedro Machado. A tese que faz derivar Bucos do latim Buxus (a planta do buxo) assenta na evolução fonética natural da língua portuguesa. Ao longo dos séculos, a transição do som "x" (sh) para o som "c" (k) foi comum em vários regionalismos e dialetos minhotos (buxo \(\rightarrow \) buco), reforçando a ideia de que a freguesia nasceu simplesmente num "buxal" (mata de buxos). A tese geografica (o abrigo no "buraco" do vale) e a história económica antiga (o local, abrigodo gado e dos pastores).A palavra buraco que dá origem a buco e Bucos no plural. Estas diferentes visões mostram que a resposta exata divide-se entre a botânica (a abundância da planta) e a geografia Por isso, a origem do nome poderá, contudo, revelar-nos pistas importantes sobre a antiguidade da povoação e a relação das suas gentes com o território. SÃO JOÃO BATISTA de BUCOS na história de Portugal Um marco importante para o conhecimento da história de Bucos remonta ao reinado de D. Dinis, no século XIII. Segundo a referência histórica que importa aprofundar, em 1288, no âmbito de um levantamento de natureza eclesiástica e administrativa, surge a designação de São João Batista de Bucos, associada a oito casas rurais sujeitas ao pagamento de rendas ou encargos. Esta referência, através da documentação histórica original, constitui um testemunho relevante da existência de uma comunidade organizada naquela época. Não significa, necessariamente, que Bucos tenha nascido nesse momento. Pelo contrário, a existência de casas rurais identificadas e de uma estrutura de obrigações económicas poderá indicar uma ocupação anterior, cuja antiguidade permanece por esclarecer. A designação de São João Batista de Bucos liga a povoação à sua tradição religiosa e à organização da comunidade em torno da igreja e da vida paroquial. Durante séculos, a identidade local foi construída pela ligação entre a terra, a fé, o trabalho e a solidariedade entre famílias. A PASTORICIA, a BASE da economia tradicional Ao longo de muitas gerações, a principal atividade económica das gentes de Bucos esteve profundamente ligada à agricultura e à pastorícia. As casas rurais ou agrícolas procuravam garantir a sua subsistência através do aproveitamento das terras, da produção de cereais, da criação de animais e da utilização dos recursos naturais da serra. Entre estas atividades, o pastoreio ocupava um lugar de particular importância. A criação de gado permitia obter alimentos, aproveitar os terrenos de pastagem e assegurar recursos indispensáveis à economia doméstica. As famílias organizavam o seu trabalho de acordo com as estações do ano, os ciclos agrícolas e as necessidades dos animais. A pastorícia não era apenas uma atividade económica individual. Era também uma expressão da organização comunitária. A vezeira, sistema tradicional de pastoreio coletivo, permitia que os animais de diferentes proprietários fossem guardados em conjunto, segundo práticas e responsabilidades partilhadas. Esta forma de organização representava uma solução prática para as famílias e, simultaneamente, um exemplo de cooperação entre os habitantes. A vezeira constituía, assim, um dos elos económicos e sociais da comunidade. A entreajuda, a partilha de tarefas e o respeito pelos costumes transmitidos de geração em geração contribuíam para a continuidade de um modo de vida profundamente ligado à terra. A CASA AGRÍCOLA e os animais da família A economia tradicional de Bucos não dependia exclusivamente do pastoreio. Cada casa agrícola procurava produzir uma parte significativa daquilo de que necessitava para viver. Os cereais ocupavam um lugar importante na alimentação e na economia familiar. As terras eram cultivadas de acordo com as suas características e possibilidades, recorrendo ao trabalho humano e à força dos animais. O porco, as galinhas e outros animais domésticos asseguravam alimentos essenciais. As vacas forneciam leite e contribuíam para a economia da casa, enquanto os bois desempenhavam um papel fundamental nos trabalhos agrícolas mais exigentes. Em determinadas ocasiões, a comunidade recorria também ao boi do povo, ou boi comunitário, associado à satisfação de necessidades coletivas. A sua existência recorda-nos que, numa sociedade rural, nem todos os recursos eram necessariamente tratados de forma individual: havia bens, responsabilidades e práticas que podiam ser partilhados em benefício da população. A casa agrícola era, portanto, muito mais do que um edifício. Era uma unidade de produção, de trabalho, de educação familiar e de transmissão de conhecimentos. Nela se aprendiam os ofícios, os costumes, o respeito pelos mais velhos e a importância da entreajuda. OS OFÍCIOS e a vida da comunidade À medida que a população cresceu e as necessidades se diversificaram, outras profissões ganharam importância em Bucos. A agricultura e a pastorícia continuaram a constituir a base económica, mas a comunidade passou a depender também de pessoas com conhecimentos e funções específicas. O pedreiro construía e reparava as casas, os muros e os edifícios necessários à vida coletiva. O carpinteiro trabalhava a madeira, indispensável às habitações, aos utensílios agrícolas e às estruturas de apoio às explorações rurais. O ferreiro fabricava e reparava ferramentas, ferraduras e outros objetos essenciais ao trabalho quotidiano. O professor assumia a missão de ensinar as crianças, abrindo-lhes as portas do conhecimento. O padre acompanhava a vida religiosa e os momentos mais importantes da comunidade, desde o nascimento e o batismo até ao casamento e à despedida dos seus mortos. O comerciante assegurava o acesso a produtos que as famílias não conseguiam produzir, estabelecendo uma ligação entre Bucos e outras localidades. Cada uma destas profissões respondia a necessidades concretas. Todas contribuíam, à sua maneira, para o funcionamento da comunidade e para a continuidade da vida em São João Batista de Bucos. UMA HISTÓRIA construída pelo trabalho e pela solidariedade Olhar para a história de Bucos é reconhecer o percurso de gerações que transformaram os recursos naturais numa forma de vida. A agricultura, a pastorícia, a vezeira, os animais domésticos, as casas agrícolas e os ofícios tradicionais constituíram os alicerces de uma comunidade que aprendeu a enfrentar as dificuldades através do trabalho e da cooperação. As eiras, os espigueiros, os alpendres, as adegas, os lagares, os caminhos e as antigas casas rurais são testemunhos materiais dessa história. Cada construção guarda marcas de uma economia em que a família, a terra e a comunidade estavam intimamente ligadas. É neste contexto que a Casa de Sanoane de Cima, cuja história familiar remonta documentalmente a 1677, assume um significado particular. A sua preservação permite valorizar não apenas a memória de uma família, mas também a história mais ampla das casas agrícolas de Bucos, dos seus modos de produção e das relações sociais que sustentaram a freguesia ao longo dos séculos. Conhecer Bucos é, por isso, conhecer as suas gentes. É reconhecer o esforço de quem trabalhou a terra, guardou os rebanhos, construiu as casas, ensinou as crianças, cuidou da comunidade e transmitiu aos seus descendentes um património feito de conhecimentos, tradições e valores. A história de Bucos não começou quando apareceu pela primeira vez escrita num documento. Esse registo é apenas uma referência que nos permite olhar para trás. As suas origens poderão ser muito mais antigas, mas é através da investigação, da memória oral, dos documentos e da preservação do património que poderemos aproximar-nos dessa história. O desafio das gerações atuais é preservar essa herança, estudá-la e transmiti-la às gerações futuras, para que Bucos continue a ser não apenas um lugar no mapa, mas uma comunidade consciente das suas raízes e orgulhosa da sua identidade. BUCOS: A CASA AGRÍCOLA e a organização da comunidade Hoje, Bucos é uma freguesia do concelho de Cabeceiras de Basto, distrito de Braga, cuja identidade continua profundamente ligada à agricultura, à criação de animais e à preservação das tradições rurais. Ao longo de gerações, a economia local assentou no aproveitamento da terra, na produção de cereais, especialmente do milho, e na criação de gado, atividades que marcaram a paisagem, a arquitetura e a organização social da freguesia. A casa agrícola tradicional de Bucos era concebida para responder às necessidades da família e da exploração rural. Não se destinava apenas a habitar: era também um espaço de produção, armazenamento, transformação dos produtos e abrigo dos animais. Cada construção tinha a sua função, e o conjunto formava uma unidade económica que procurava assegurar, tanto quanto possível, a subsistência familiar. A habitação constituía o centro da vida doméstica. Junto dela existia o curral, destinado aos animais, enquanto o alpendre servia para guardar ferramentas, abrigar os utensílios agrícolas e proteger os produtos durante a secagem. O espigueiro, elemento tão característico da paisagem rural minhota, destinava-se à conservação do milho, protegendo as espigas da humidade e dos animais. A adega guardava o vinho produzido nas vinhas da propriedade, resultado de um trabalho que acompanhava o ritmo das estações. Em algumas explorações existia também um moinho, utilizado para transformar o milho em farinha, indispensável à alimentação das famílias e à produção do pão. A proximidade entre os espaços de habitação, criação de animais, armazenamento e transformação dos produtos permitia organizar o trabalho agrícola de forma prática e eficiente. As profissões tradicionais também possuíam os seus espaços próprios. O ferreiro trabalhava na forja, onde fabricava e reparava ferramentas, ferraduras e utensílios necessários à agricultura. O carpinteiro dispunha de uma oficina e, quando a atividade o exigia, de um espaço para serrar e preparar a madeira utilizada nas construções, nos instrumentos agrícolas e nos objetos do quotidiano. Eram ofícios indispensáveis ao funcionamento da economia local, pois permitiam às famílias reparar equipamentos e satisfazer muitas das suas necessidades sem depender constantemente de recursos exteriores. Mas Bucos não se organizava apenas em torno da terra e do trabalho. A comunidade estruturava-se também à volta de instituições e figuras que desempenhavam um papel fundamental na vida coletiva. O professor, o padre e a Igreja, juntamente com as capelas e outros espaços de culto, constituíam referências centrais da comunidade. O professor representava o acesso à aprendizagem e ao conhecimento, contribuindo para a formação das novas gerações. O padre acompanhava a vida religiosa e os momentos mais significativos da existência das famílias. A Igreja e as capelas eram lugares de oração, celebração, encontro e convívio, onde se reforçavam os laços de pertença e solidariedade entre os habitantes. A vida comunitária completava-se com a entreajuda entre vizinhos, a partilha de tarefas, as festas religiosas, os costumes e as tradições transmitidas de pais para filhos. O trabalho agrícola exigia esforço e persistência, mas também cooperação. Era essa ligação entre a família, a exploração rural e a comunidade que permitia enfrentar as dificuldades e manter vivo um modo de vida construído ao longo dos séculos. Assim se compreende a importância de preservar as antigas casas agrícolas de Bucos, as eiras, os espigueiros, os alpendres, as adegas, os moinhos e as oficinas dos antigos artesãos. Estes elementos não são apenas construções antigas: são testemunhos de uma sociedade organizada em torno da terra, dos animais, do trabalho e da solidariedade. A Casa de Sanoane de Cima, com a sua história e os seus espaços tradicionais, integra esse património e ajuda-nos a compreender a realidade das famílias agrícolas de Bucos. A sua valorização representa uma oportunidade para dar a conhecer às novas gerações a forma como se vivia, se trabalhava e se organizava a comunidade rural. Preservar a história de Bucos é preservar a memória das suas gentes. É reconhecer o valor daqueles que cultivaram os campos, guardaram os rebanhos, construíram as casas, exerceram os seus ofícios, ensinaram as crianças e mantiveram vivas as tradições. É, acima de tudo, compreender que a identidade de uma freguesia não se encontra apenas nos seus edifícios ou na sua paisagem, mas na história coletiva de todos aqueles que, ao longo do tempo, contribuíram para a sua construção. BUCOS E SUAS TRADIÇÕES CASAS RURAIS, tradição da lã, moinhos e Jogo do Pau Bucos, freguesia do concelho de Cabeceiras de Basto, distrito de Braga, guarda um património histórico, cultural e etnográfico que testemunha a vida das gerações que, ao longo dos séculos, construíram a identidade desta terra. As suas tradições nasceram da relação entre o homem e a natureza, do trabalho agrícola, da criação de animais, do aproveitamento dos recursos locais e da necessidade de preservar conhecimentos transmitidos de pais para filhos. As casas rurais, a tradição da lã, os moinhos e o Jogo do Pau constituem expressões distintas de uma mesma herança: a memória de um povo que soube transformar o trabalho, a experiência e a convivência em património coletivo. 1. AS CASAS RURAIS: a memória da vida agrícola As antigas casas agrícolas são testemunhos fundamentais da história de Bucos. Construídas de acordo com as necessidades das famílias e das explorações rurais, organizavam-se em espaços destinados à habitação, à criação de animais, à conservação dos produtos agrícolas e à realização das tarefas quotidianas. Entre os elementos mais característicos desta arquitetura encontram-se os espigueiros, as eiras e os alpendres, que ainda hoje podemos observar em diversas casas agrícolas da freguesia. O espigueiro, também conhecido como canastro, destinava-se principalmente à conservação do milho depois da colheita. A sua construção permitia favorecer a ventilação e proteger as espigas da humidade e dos animais. Para além da sua função prática, tornou-se um dos símbolos mais representativos da arquitetura rural minhota. A eira era o espaço onde se realizavam trabalhos importantes do ciclo agrícola, nomeadamente a debulha dos cereais e a preparação do milho para armazenamento. Era também um lugar de encontro, onde o trabalho se conjugava frequentemente com a entreajuda familiar e comunitária. Os alpendres serviam para abrigar ferramentas, guardar utensílios, proteger produtos agrícolas e realizar trabalhos que exigiam um espaço coberto. A sua presença revela a preocupação em adaptar a construção às exigências de uma economia essencialmente agrícola. A habitação, o curral, a adega, o espigueiro, a eira e o alpendre formavam, em conjunto, uma unidade de produção e de vida familiar. Cada espaço tinha uma função própria e todos contribuíam para a autonomia da casa agrícola. Preservar estas construções significa conservar muito mais do que edifícios antigos: significa manter viva a memória de uma sociedade que organizava a sua existência em torno da terra, dos animais e dos ritmos da natureza. A Casa de Sanoane de Cima, cuja história familiar documentada remonta a 1677, integra este património e constitui um exemplo do valor histórico e cultural das antigas casas agrícolas de Bucos. 2. A CASA DA LÃ: uma tradição que se transforma em património A tradição da lã ocupa um lugar especial na identidade cultural de Bucos. Durante gerações, a criação de ovinos e o aproveitamento da lã estiveram associados à economia rural, ao vestuário e às necessidades quotidianas das famílias. A lã era uma matéria-prima preciosa, obtida através da tosquia das ovelhas. Depois de recolhida, passava por diferentes fases de preparação e transformação, que podiam incluir a lavagem, a seleção, a cardação, a fiação e a tecelagem. O trabalho exigia conhecimentos específicos, paciência e destreza, transmitidos ao longo do tempo. A transformação da lã permitia produzir fios e tecidos destinados à confeção de peças de vestuário e outros artigos de uso doméstico. Esta atividade representava não apenas uma forma de aproveitamento dos recursos locais, mas também um saber-fazer profundamente ligado à vida das famílias e à economia tradicional. A Casa da Lã assume, neste contexto, um papel importante na valorização e divulgação desta herança. Através da preservação dos conhecimentos, da demonstração das técnicas tradicionais e da promoção de atividades culturais e pedagógicas, contribui para aproximar as novas gerações de um trabalho que marcou a vida de muitas comunidades rurais. A lã conta uma história de trabalho, criatividade e aproveitamento dos recursos naturais. Valorizar esta tradição é reconhecer o conhecimento das pessoas que a mantiveram viva e criar oportunidades para que continue a ter significado no presente. A Casa da Lã pode, assim, afirmar-se como um espaço de memória, aprendizagem e valorização cultural, contribuindo para a divulgação do património de Bucos e para a sua ligação a iniciativas de turismo cultural e etnográfico. 3. OS MOINHOS: a tradição do pão Durante séculos, o pão foi um dos alimentos fundamentais da alimentação das famílias rurais. A sua produção dependia de um conjunto de tarefas que começava nos campos, com a sementeira e a colheita dos cereais, e terminava no forno, onde a farinha se transformava em alimento. Em Bucos, como noutras comunidades rurais do Minho, os moinhos desempenharam um papel importante neste ciclo. Aproveitando a força da água, os moinhos hidráulicos permitiam moer o milho e outros cereais, transformando-os em farinha para a preparação do pão e de outros alimentos. O moinho era muito mais do que uma construção destinada à moagem. Representava uma ligação entre a agricultura, a energia da água e a alimentação das famílias. O seu funcionamento exigia conhecimentos técnicos e cuidados de manutenção, enquanto a utilização dos serviços de moagem fazia parte da organização económica e social da comunidade. A farinha seguia depois para a cozinha e para o forno, onde se preparava o pão que alimentava a família. Todo este processo traduzia uma relação estreita entre a terra, a água, o trabalho humano e a mesa de cada casa. Os moinhos são, por isso, testemunhos de uma economia que procurava aproveitar os recursos naturais de forma prática e sustentável. A sua preservação permite compreender melhor os antigos sistemas de produção alimentar e recordar o valor que o pão tinha na vida quotidiana. Recuperar a memória dos moinhos de Bucos é também recuperar histórias de moleiros, agricultores, padeiras e famílias que, através do seu trabalho, garantiram a continuidade de uma tradição essencial. 4. O JOGO DO PAU: uma tradição de destreza e identidade O Jogo do Pau constitui uma das expressões mais características da cultura tradicional portuguesa. Associado historicamente a contextos rurais, à defesa pessoal, à destreza física e à transmissão de técnicas de combate com um pau, desenvolveu-se em diferentes regiões do país, assumindo características próprias em cada comunidade. Em Bucos, esta tradição encontrou expressão na prática associativa e na vontade de preservar um património cultural que exige treino, disciplina, agilidade e respeito pelos outros. A Associação do Jogo do Pau desempenha um papel relevante na continuidade e divulgação desta prática, contribuindo para transmitir técnicas, valorizar a memória local e criar oportunidades de participação para diferentes gerações. A aprendizagem do Jogo do Pau envolve coordenação, equilíbrio, rapidez de reação e domínio dos movimentos. Mas a sua importância ultrapassa a dimensão física: representa também uma ligação à história das comunidades, às formas tradicionais de sociabilidade e aos conhecimentos que os mais velhos transmitiram aos mais novos. Embora as origens remotas do uso do pau como instrumento de defesa sejam difíceis de determinar com precisão, o Jogo do Pau possui uma longa história na cultura portuguesa. Em Bucos, a sua preservação constitui uma forma de afirmar a identidade local e de manter viva uma tradição que merece ser conhecida e valorizada. A continuidade desta prática depende do trabalho associativo, da formação de novos praticantes, da participação em encontros e demonstrações e da transmissão responsável dos conhecimentos tradicionais. 5. UM PATRIMÓNIO que une o passado ao futuro As casas rurais, a tradição da lã, os moinhos e o Jogo do Pau mostram diferentes dimensões da história de Bucos. As primeiras revelam a organização da vida agrícola; a lã recorda o aproveitamento dos recursos animais e a transformação artesanal; os moinhos testemunham a importância dos cereais, da água e do pão; o Jogo do Pau preserva uma expressão cultural ligada à destreza, à disciplina e à identidade popular. Estas tradições não devem ser vistas apenas como recordações de um passado distante. Constituem recursos culturais que podem contribuir para a educação, a valorização do território, a dinamização associativa e a divulgação de Bucos junto de visitantes e investigadores. A sua preservação exige o envolvimento das associações, das instituições locais, das famílias e de todos aqueles que reconhecem o valor da memória coletiva. Exige também o registo dos testemunhos dos mais velhos, a recolha de fotografias e documentos, a conservação dos espaços tradicionais e a criação de oportunidades para que as novas gerações aprendam e participem. A Casa de Sanoane de Cima, com os seus espaços agrícolas e a sua história, pode integrar este esforço de valorização, contribuindo para um roteiro que relacione as casas rurais, as eiras, os espigueiros, os alpendres, a Casa da Lã, os moinhos e as manifestações culturais de Bucos. Preservar as tradições de Bucos é conservar a memória de um povo e preparar o futuro com conhecimento das suas raízes. É reconhecer que o património não se limita às pedras das casas ou aos objetos antigos: vive também nas técnicas, nos gestos, nas histórias, nas associações e nas pessoas que continuam a dar sentido a esta herança. Bucos tem, neste património, uma oportunidade para afirmar a sua identidade, valorizar a sua história e transmitir às gerações futuras o orgulho de pertencer a uma terra onde o trabalho, a cultura e a solidariedade ajudaram a construir uma comunidade ao longo dos séculos. PERCURSO HISTÓRICO POR BUCOS AS CASAS AGRÍCOLAS, as memórias familiares e o património da freguesia Bucos, no concelho de Cabeceiras de Basto, conserva nas suas casas antigas uma parte fundamental da história da comunidade. As construções em pedra, os espigueiros, as eiras, os alpendres e os terreiros testemunham uma organização rural em que a agricultura, a criação de animais, a família e a entreajuda constituíam os pilares da vida quotidiana. Neste percurso, para além da Casa de Sanoane de Cima, da antiga Casa Martins e da Casa da Pereira, destacam-se outras construções que ajudam a compreender a evolução económica, social, educativa e religiosa de Bucos. Casas rurais, espigueiros e memórias de uma comunidade agrícola Bucos, freguesia do concelho de Cabeceiras de Basto, situa-se na região montanhosa do Minho, num território cuja história e identidade se encontram profundamente ligadas à pastorícia, à agricultura e à cultura dos cereais. Ao longo de gerações, as suas gentes souberam aproveitar os recursos da terra, organizar o trabalho agrícola e construir casas adaptadas às necessidades da família e da exploração rural. A povoação apresenta um povoamento disperso, característico de muitas regiões rurais do Minho, mas também núcleos de maior concentração de habitações, como acontece no lugar da Portela. Neste território, as casas agrícolas, os espigueiros, as eiras e os alpendres constituem testemunhos de uma economia tradicional em que a produção, a conservação dos alimentos e a criação de animais desempenhavam um papel essencial. É neste cenário que propomos um percurso histórico e patrimonial por algumas antigas casas agrícolas de Bucos. Mais do que observar edifícios, procuramos compreender os modos de vida, as atividades económicas e as histórias familiares que contribuíram para a construção da identidade da freguesia. 1. CASA DE SANOANE DE CIMA — Largo de Sanoane O percurso inicia-se na Casa de Sanoane de Cima, situada no largo de Sanoane, junto ao Cruzeiro, uma referência na paisagem e na memória local. Com uma história familiar documentada que remonta a 1677, esta casa constitui um testemunho significativo na organização da antiga exploração agrícola de Bucos. A disposição dos seus espaços permite compreender como a habitação e as estruturas de apoio à agricultura se articulavam numa mesma unidade rural. O espigueiro, a eira, o alpendre e a adega são elementos fundamentais deste conjunto. O espigueiro destinava-se à conservação do milho, protegendo a produção e permitindo a sua utilização ao longo do ano. A eira servia para os trabalhos agrícolas relacionados com os cereais, enquanto o alpendre proporcionava um espaço coberto para guardar utensílios, proteger produtos e realizar diversas tarefas. A adega estava associada à produção e conservação do vinho, outro elemento da economia doméstica tradicional. A observação destes espaços permite perceber que uma casa agrícola não era apenas o lugar onde uma família vivia. Era também um centro de trabalho, produção, armazenamento e transformação dos recursos da propriedade. A Casa de Sanoane de Cima abre-nos, assim, uma janela sobre a vida rural de Bucos, permitindo valorizar a arquitetura tradicional e os conhecimentos transmitidos entre gerações. 2. ANTIGA CASA MARTINS - HOJE CASA DE MANUEL OLIVEIRA Prosseguindo o percurso, chegamos à antiga Casa Martins, situada junto às poça de Vales. Esta casa reúne duas dimensões importantes da vida tradicional da freguesia: a atividade comercial e a exploração agrícola. Foi, segundo a memória local, uma antiga mercearia, espaço de abastecimento e de contacto entre os habitantes, ao mesmo tempo que mantinha as características de uma casa rural, com o seu espigueiro e a sua eira. A mercearia tinha um papel importante numa comunidade onde muitas famílias produziam grande parte dos alimentos que consumiam, mas necessitavam de adquirir outros produtos indispensáveis ao quotidiano. Para além da sua função comercial, estes estabelecimentos eram frequentemente lugares de encontro, conversa e circulação de notícias. O espigueiro e a eira recordam-nos a importância da cultura do milho e da organização do trabalho agrícola. A sua presença demonstra como diferentes funções económicas podiam coexistir no mesmo espaço: a produção agrícola, a conservação dos cereais e o comércio de bens essenciais. O lugar de Vales apresenta ainda uma relação particular com a água. Aqui se encontram algumas das principais poças de água de regadio da freguesia, ligadas ao aproveitamento e à distribuição da água para as terras agrícolas. Estas estruturas recordam a importância da gestão dos recursos hídricos numa economia dependente da agricultura. A água era indispensável para a rega das culturas e exigia organização, manutenção e, em muitos casos, cooperação entre os proprietários e utilizadores. A antiga Casa Martins permite-nos, portanto, compreender a ligação entre agricultura, comércio e aproveitamento da água, três dimensões fundamentais da vida económica e social de Bucos. 3. CASA DA CAPELA — Uma história de esperança e destino O percurso conduz-nos depois à Casa da Capela, uma construção cuja história permanece ligada a uma memória particularmente marcante. Situada num cruzamento de caminhos e bem delimitada no espaço, esta casa terá sido concebida com a intenção de acolher uma capela. A sua localização permitiria que o edifício assumisse uma função religiosa e comunitária, servindo de referência aos habitantes e a quem passava por aqueles caminhos. Segundo a tradição oral, o projeto estaria associado à família Martins e ao futuro de um dos seus membros, destinado à vida sacerdotal. Porém, a doença e a morte prematura daquele que se preparava para ser padre terão alterado o destino inicialmente previsto. A intenção de construir uma capela não se concretizou. A propriedade acabou por ser vendida e os espaços passaram a desempenhar funções agrícolas. O edifício foi transformado, o espigueiro e o alpendre ganharam utilidade na exploração rural, e o antigo adro passou a servir de eira. A história da Casa da Capela representa, assim, o encontro entre um projeto familiar, uma perda dolorosa e a necessidade de dar uma nova utilização aos espaços. O que poderia ter sido um lugar de culto transformou-se numa estrutura ligada ao trabalho agrícola. Esta narrativa, transmitida pela memória local, merece ser preservada e, sempre que possível, confrontada com documentos e testemunhos que permitam esclarecer os seus pormenores. A Casa da Capela recorda-nos que cada construção possui uma história que ultrapassa as suas paredes. As casas são também lugares de sentimentos, expectativas, acontecimentos familiares e mudanças de destino. CASA DA PEREIRA — Uma das grandes casas agrícolas de Bucos Situada no coração do lugar, a Casa da Pereira destaca-se entre as casas rurais mais antigas da freguesia de Bucos. A sua importância histórica é reforçada pela referência que lhe é atribuída no inquérito eclesiástico de 1288, documentação que poderá ajudar a compreender a antiguidade da ocupação e a organização das propriedades rurais da freguesia. A dimensão do seu conjunto agrícola merece particular atenção. A Casa da Pereira possui uma das maiores eiras da localidade, acompanhada por três espigueiros dispostos ao seu redor. Este conjunto constitui um elemento marcante da paisagem rural e permite-nos refletir sobre a importância económica que a propriedade poderá ter alcançado ao longo da sua história. A eira, pela sua dimensão, estaria vocacionada para os trabalhos agrícolas associados à preparação e à debulha dos cereais. Os três espigueiros, por sua vez, destinavam-se à conservação do milho, uma das produções fundamentais da economia tradicional de Bucos. A existência destas estruturas, consideradas em conjunto, sugere uma exploração agrícola de dimensão significativa, capaz de produzir e armazenar quantidades importantes de cereais. Embora a dimensão das construções, por si só, não permita determinar a extensão exata da propriedade ou a riqueza dos seus antigos proprietários, constitui um indício relevante da capacidade produtiva que a casa poderá ter representado na comunidade. A Casa da Pereira convida-nos, assim, a olhar para Bucos numa época em que a agricultura e a criação de animais estruturavam a vida das famílias. As grandes eiras e os espigueiros não eram apenas construções utilitárias: representavam o resultado de um trabalho exigente, desenvolvido ao longo de todo o ano, e a capacidade de assegurar a subsistência familiar através da terra. No percurso histórico pelas casas agrícolas de Bucos, a Casa da Pereira ocupa, por isso, um lugar de destaque. A sua localização central, a antiguidade que lhe é atribuída e a dimensão do seu património agrícola fazem dela um testemunho importante da história rural da freguesia. A Casa da Pereira é um exemplo de como a arquitetura tradicional nos permite interpretar a história económica e social de Bucos. A sua preservação e o estudo dos documentos que lhe dizem respeito poderão contribuir para esclarecer o papel que desempenhou na comunidade ao longo dos séculos e para valorizar uma herança que importa transmitir às gerações futuras. 1. CASA DO COUCIEIRO — A imponência da construção rural A Casa do Coucieiro destaca-se pela imponência da sua construção em pedra, reveladora da importância atribuída à solidez e à durabilidade das habitações rurais de Bucos. O conjunto formado pela casa, pelo espigueiro, pela eira e pelo alpendre permite reconhecer as características de uma exploração agrícola tradicional. Cada espaço respondia a uma necessidade concreta: a habitação acolhia a família, o espigueiro guardava o milho, a eira servia os trabalhos relacionados com os cereais e o alpendre proporcionava abrigo para ferramentas, produtos e atividades agrícolas. A observação desta casa permite compreender como a arquitetura rural se adaptava às exigências do trabalho e às condições do território. A pedra, abundante na região, era um material essencial, utilizado na construção de edifícios destinados a atravessar gerações. A Casa do Coucieiro integra, assim, o património arquitetónico que merece ser valorizado num roteiro pelas antigas casas agrícolas de Bucos. 2. CASA DA VENDEIRA — Do comércio à escola e à agricultura A Casa da Vendeira ocupa um lugar particular na memória local, pela diversidade de funções que desempenhou ao longo do tempo. Segundo a tradição transmitida na freguesia, terá sido a primeira casa de venda ou mercearia de Bucos. Num tempo em que as deslocações eram difíceis e muitas famílias produziam grande parte dos seus próprios alimentos, estes estabelecimentos desempenhavam um papel importante no abastecimento da população e no contacto entre os habitantes. A casa ficou também associada ao início da atividade escolar na freguesia. Em 1908, segundo a memória local, terá funcionado ali a primeira escola de Bucos, onde se instalou o professor Casalta. Este apontamento confere à Casa da Vendeira um significado que ultrapassa a sua dimensão comercial e agrícola: liga-a à história da educação e à aprendizagem das primeiras letras por gerações de crianças. Mais tarde, a casa assumiu funções agrícolas, acompanhando a evolução das necessidades familiares e da economia rural. A Casa da Vendeira representa, deste modo, três dimensões importantes da história de Bucos: o comércio tradicional, a introdução do ensino escolar e a atividade agrícola. A sua memória merece ser preservada, pois recorda-nos que os mesmos edifícios podem adquirir diferentes funções e continuar a desempenhar um papel significativo na vida de uma comunidade. 3. CASA DA SENRA — Antiguidade, dimensão e tradição religiosa A Casa da Senra é apontada como uma das casas agrícolas mais antigas e de maior dimensão da freguesia. A sua importância histórica é reforçada pela referência que lhe é atribuída no inquérito eclesiástico de 1288, um elemento que merece ser estudado à luz da documentação original. A dimensão da casa e a memória da sua antiguidade permitem situá-la entre os conjuntos rurais relevantes para a compreensão da organização económica e social de Bucos ao longo dos séculos. A Casa da Senra distingue-se ainda pela ligação à história religiosa local. Segundo a memória da comunidade, são conhecidos dois padres oriundos desta casa. Esta circunstância constitui um aspeto de particular interesse, pois revela a relação entre algumas famílias rurais e a formação de pessoas que vieram a desempenhar funções religiosas. Numa sociedade em que a Igreja ocupava uma posição central, a presença de membros do clero provenientes das casas agrícolas representava uma ligação entre a vida familiar, a educação e a comunidade religiosa. A Casa da Senra reúne, assim, três elementos de relevo para o património de Bucos: a antiguidade que lhe é atribuída, a dimensão da exploração rural e a memória dos dois sacerdotes que dela terão saído. 4. As casas com terreiro comum — A arquitetura da família e da comunidade Entre as construções tradicionais de Bucos encontram-se casas organizadas em torno de um terreiro comum, um espaço de acesso, circulação e convivência partilhado por diferentes habitações. Esta forma de organização constitui um exemplo interessante da arquitetura familiar rural. Várias casas podiam relacionar-se através de uma entrada comum e de um espaço exterior partilhado, mantendo simultaneamente a identidade de cada núcleo doméstico. O terreiro servia de passagem, de acesso aos edifícios e, em determinadas circunstâncias, de apoio às tarefas quotidianas. A proximidade física entre as habitações favorecia o contacto entre familiares e podia facilitar a entreajuda nas atividades agrícolas e domésticas. Esta organização apresenta semelhanças com soluções habitacionais atuais, nomeadamente os condomínios, nos quais existem zonas de entrada e circulação comuns. A comparação deve, naturalmente, considerar as diferenças jurídicas e funcionais entre as casas rurais tradicionais e os empreendimentos contemporâneos. Nas casas antigas de Bucos, o terreiro comum expressava sobretudo uma forma de organização familiar, muitas vezes construída ao longo de gerações, em que a proximidade das habitações refletia relações de parentesco, propriedade e cooperação. Preservar estes conjuntos permite valorizar não apenas os edifícios, mas também a forma como as famílias organizavam os seus espaços e as suas relações quotidianas. 5. IGREJA PAROQUIAL DE BUCOS — Da tradição local à centralidade religiosa A Igreja Paroquial ocupa um lugar central na história e na identidade de Bucos. A sua importância ultrapassa a função religiosa, pois durante gerações foi também um espaço de encontro, celebração e organização da vida comunitária. Segundo a tradição popular, a igreja terá tido origem numa antiga capela associada às Casas de Sanoane, posteriormente distinguidas como Sanoane de Baixo e Sanoane de Cima. Esta memória relaciona o património religioso com a história das antigas casas agrícolas da freguesia. A tradição local associa a transformação e ampliação deste espaço religioso à data de 1775, segundo inscrição na parte superior da porta principal. A passagem de um espaço de culto associado a uma propriedade familiar para uma igreja de referência paroquial, documentalmente esta evolução não está confirmada, um dito na voz do povo, representaria uma mudança importante na organização religiosa e comunitária de Bucos. A Igreja Paroquial continua a ser um marco fundamental da paisagem e da memória local, testemunhando a importância da fé e das instituições religiosas na vida das gerações que construíram a freguesia. 6. Um património que merece ser conhecido e preservado As casas do Coucieiro, da Vendeira e da Senra, os conjuntos habitacionais com terreiro comum e a Igreja Paroquial revelam diferentes dimensões da história de Bucos. A arquitetura em pedra testemunha a capacidade construtiva das comunidades rurais. Os espigueiros, as eiras e os alpendres recordam a economia agrícola. A Casa da Vendeira associa-se ao comércio e à educação. A Casa da Senra evoca a antiguidade das grandes casas rurais e a sua ligação à vida religiosa. Os terreiros comuns mostram formas de organização familiar, enquanto a Igreja Paroquial representa a centralidade da tradição religiosa. Em conjunto com a Casa de Sanoane de Cima, a Casa Martins, a Casa da Capela e a Casa da Pereira, estes lugares permitem construir um percurso histórico que dá a conhecer a riqueza patrimonial da freguesia. A valorização deste património poderá envolver a recolha de testemunhos orais, a identificação das casas e dos seus elementos arquitetónicos, a pesquisa em arquivos paroquiais e municipais e a criação de painéis interpretativos ao longo do percurso. As referências históricas atribuídas a 1288, 1775 e 1908 merecem especial atenção, devendo ser confrontadas com documentos originais sempre que possível, para que a divulgação pública distinga claramente os factos comprovados das tradições transmitidas pela comunidade. Bucos conserva nas suas casas a memória de uma sociedade construída pelo trabalho, pela família, pela educação e pela fé. Conhecer estes lugares é compreender melhor as raízes da freguesia e reconhecer que o património rural constitui uma herança coletiva que merece ser preservada e transmitida às gerações futuras.

domingo, 25 de outubro de 2026

A GRANDE VITÓRIA DA DEMOCRACIA

Quando o povo decide, a história pode mudar Hoje, vivi um daqueles momentos em que a política nos faz refletir sobre a força da democracia e a capacidade dos povos para surpreender o mundo. A vitória de Lula da Silva representa, para mim, muito mais do que uma vitória eleitoral. É a demonstração de que a vontade popular, quando se mobiliza e acredita na possibilidade de mudança, pode transformar o rumo de um país. Há uma frase que atravessa gerações e continua a ter um significado profundo: «O povo unido jamais será vencido!» Não significa que todos pensem da mesma maneira, mas que a democracia ganha força quando os cidadãos participam, defendem as suas convicções e fazem ouvir a sua voz nas urnas. Mas há, nesta história, uma ironia política que merece reflexão: o papel de Donald Trump, uma das figuras mais influentes da direita mundial. Por vezes, os protagonistas políticos, na tentativa de fortalecer as suas posições, acabam por produzir efeitos contrários aos que pretendiam. Aquilo que se apresenta como uma vantagem pode transformar-se num estímulo à mobilização dos adversários. Se as ações e declarações de Trump contribuíram para reforçar a mobilização em torno de Lula, estaremos perante um exemplo de como a política nem sempre obedece aos planos dos seus protagonistas. É uma interpretação que merece ser analisada à luz dos acontecimentos, mas que revela uma verdade conhecida: ninguém controla inteiramente as consequências das suas próprias ações. A democracia é precisamente isto: um espaço de confronto de ideias, de escolhas livres e de resultados que nem sempre correspondem às expectativas de quem julga ter o poder do seu lado. A vitória de um candidato não deve significar a derrota dos direitos de quem pensa de maneira diferente. O verdadeiro triunfo democrático acontece quando as instituições são respeitadas, a liberdade é preservada e o povo continua a ser o soberano das suas decisões. É por isso que olho para este momento com emoção e esperança. A história demonstra-nos, repetidamente, que os povos não são espectadores passivos do seu destino. Podem errar, podem dividir-se, podem hesitar, mas conservam nas suas mãos uma das maiores forças de uma sociedade livre: o direito de escolher. No fim, não são os homens que se julgam donos da história que têm a última palavra. É o povo, através da sua vontade democrática, que decide o caminho a seguir. E essa é, acima de tudo, a grande lição que retiro deste momento: a democracia vive enquanto o povo tiver voz, liberdade e coragem para decidir o seu futuro.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O Prof Fernando António Brás e o Padre Avelino Vilela os Motores do Desenvolvimento

Professor Fernando António Brás e Padre Avelino Vilela — duas figuras marcantes de uma comunidade Nos primeiros anos do primeiro quarto do século XXI, a freguesia de Bucos, no concelho de Cabeceiras de Basto, teve em duas personalidades referências fundamentais do seu desenvolvimento: o Professor Fernando António Brás e o Padre Avelino Vilela. Com percursos diferentes, responsabilidades distintas e formas próprias de servir a comunidade, ambos se destacaram pelo contributo que deram à vida da freguesia. Um, ligado à educação, à administração autárquica e à dinamização do desenvolvimento local; o outro, dedicado à ação pastoral, à solidariedade social e ao acompanhamento das pessoas, sobretudo das mais idosas. Duas figuras que, cada uma à sua maneira, ajudaram a construir uma comunidade mais participativa, mais solidária e mais consciente das suas necessidades. Professor Fernando António Brás: educação, autarquia e desenvolvimento local O Professor Fernando António Brás afirmou-se como uma figura de relevo na vida de Bucos, conjugando a sua ligação à educação com o exercício de funções autárquicas, enquanto presidente da Junta de Freguesia. A sua intervenção ficou associada à concretização de iniciativas importantes para a população e à procura de soluções para necessidades essenciais da freguesia. Entre as realizações de maior significado, merece destaque a criação da Casa da Lã, um espaço de valorização de uma atividade tradicional profundamente ligada à identidade de Bucos e à memória das suas gentes. A lã, o pastoreio e os trabalhos artesanais fazem parte de um património cultural que atravessou gerações. A criação da Casa da Lã representou, assim, uma forma de preservar esse legado, reconhecer os saberes tradicionais e manter viva uma das marcas da identidade local. Outro passo importante foi o abastecimento de água à freguesia, uma intervenção essencial para a melhoria das condições de vida da população. Também o alargamento do cemitério respondeu a uma necessidade da comunidade, constituindo uma obra relevante para o serviço público local. Mas o desenvolvimento de Bucos não se fez apenas através de obras e infraestruturas. Fez-se também através da participação cívica, da colaboração e do espírito de entreajuda entre as pessoas e as instituições. Neste domínio, merece referência a participação e a colaboração com as associações locais, nomeadamente a Bucos Viva e a associação ligada ao Jogo do Pau, importantes expressões da vitalidade cultural e associativa da freguesia. O envolvimento nestas iniciativas contribuiu para reforçar os laços comunitários, valorizar as tradições e incentivar a participação dos habitantes na vida coletiva. A experiência autárquica e a ligação à educação encontram, assim, expressão num percurso marcado pela preocupação com o desenvolvimento, a preservação da identidade local e a valorização das capacidades da comunidade. Padre Avelino Vilela: solidariedade social e ação pastoral Se o Professor Fernando António Brás se destacou sobretudo pela intervenção educativa, autárquica e comunitária, o Padre Avelino Vilela assumiu um papel particularmente relevante na dimensão social e espiritual de Bucos. A sua ação pastoral ultrapassou os limites da celebração religiosa. Foi também uma presença junto das pessoas, das famílias e dos que necessitavam de apoio, contribuindo para manter vivos os valores da solidariedade, da proximidade e da fraternidade. Entre as áreas de maior importância da sua intervenção destaca-se o serviço prestado pelo Lar de Terceira Idade, uma resposta social fundamental para a população idosa. O cuidado com os mais velhos, a atenção às suas necessidades e a preocupação com a sua dignidade representam uma dimensão essencial do desenvolvimento humano de qualquer comunidade. Numa freguesia marcada pela ruralidade, pelo envelhecimento da população e pela importância dos laços familiares, as respostas sociais assumem um significado especial. Não se trata apenas de assegurar cuidados: trata-se de proporcionar acompanhamento, respeito, segurança e condições para uma vida mais digna. Através da sua ação pastoral e do seu envolvimento na dimensão social, o Padre Avelino Vilela contribuiu para reforçar o sentido de comunidade e para recordar que o progresso de uma freguesia também se mede pela forma como cuida dos seus habitantes, particularmente dos mais vulneráveis. Dois percursos, uma mesma missão O Professor Fernando António Brás e o Padre Avelino Vilela representam duas formas complementares de servir Bucos. Um, através da educação, da autarquia, das obras públicas e da colaboração com o movimento associativo; o outro, através da ação pastoral, da solidariedade e das respostas sociais. Ambos contribuíram, em campos diferentes, para responder às necessidades da população e fortalecer a vida coletiva. A criação da Casa da Lã, o abastecimento de água, o alargamento do cemitério, a participação nas associações culturais e tradicionais e o serviço prestado pelo Lar de Terceira Idade são exemplos de como o desenvolvimento local se constrói através de iniciativas diversas, que vão das infraestruturas à cultura, da participação cívica ao cuidado humano. Importa, igualmente, reconhecer que nenhuma destas realizações acontece de forma isolada. Por detrás de cada iniciativa estão pessoas, instituições, trabalhadores, voluntários e habitantes que participam, colaboram e acreditam nas possibilidades da sua terra. É nessa capacidade de cooperação e entreajuda que reside uma parte essencial da força de Bucos. Uma memória que merece ser preservada A história de uma freguesia não se escreve apenas através das datas e dos acontecimentos mais antigos. Escreve-se também com as pessoas que, no seu tempo, assumiram responsabilidades e contribuíram para transformar a realidade local. Nos primeiros anos do século XXI, o Professor Fernando António Brás e o Padre Avelino Vilela foram duas dessas figuras marcantes. Os seus percursos recordam-nos que o desenvolvimento não depende exclusivamente de recursos materiais ou de grandes investimentos: depende também da dedicação, da capacidade de liderança, da solidariedade e da vontade de servir. Bucos deve reconhecer e preservar a memória daqueles que contribuíram para o seu progresso, porque conhecer o passado recente é também compreender o presente e preparar o futuro. O legado destas duas personalidades merece, por isso, integrar a memória coletiva da freguesia, como testemunho de uma época em que a educação, a ação autárquica, a cultura, a solidariedade social e a pastoral se cruzaram na construção de uma comunidade mais forte. Duas figuras, dois caminhos e uma mesma terra: Bucos, onde o desenvolvimento se fez também graças àqueles que colocaram o seu trabalho, a sua dedicação e o seu sentido de missão ao serviço dos outros.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Custódio Henriques Braz o Motor do Desenvolvimento Material e Político de Bucos

Custódio Henriques Braz (1920–1980), foi o verdadeiro pilar secular e político desse século de ouro, liderando o desenvolvimento da freguesia ao lado de duas figuras absolutamente icónicas e reverenciadas na memória coletiva de Cabeceiras de Basto: o Padre Adão de Moura e o Professor Paulo Casalta Este "triunvirato" de homens influentes — o líder comunitário, o pároco e o educador — formou a aliança perfeita que transformou Bucos, unindo o progresso material ao desenvolvimento social, espiritual e cultural da população: 1. Custódio Henriques Braz: O Motor do Desenvolvimento Material e Político (1920 - 1980) Nascido em 1920 na histórica Casa da Pereira,personificou a transição da Bucos antiga para a Bucos moderna. Sendo o homem mais influente do século na freguesia, a sua liderança (frequentemente ligada à Freguesia e à representação local junto do Município) foi decisiva para que o crescimento demográfico fosse acompanhado por infraestruturas. Sob a sua influência e o seu falecimento em 1980, Bucos viu nascer os acessos, a eletrificação, o ordenamento das águas e o apoio às novas dinâmicas agrícolas e comerciais das novas casas que iam surgindo. Ele era a voz e a autoridade civil da comunidade. 2. Padre Adão de Moura: O Pastor Espiritual e Social (1910 - 1969) por 50 Anos A presença do Padre Adão de Moura confunde-se com a própria história de Bucos no século XX. Estar à frente de uma paróquia durante cinco décadas conferiu-lhe um estatuto de conselheiro e protetor de gerações. Além do plano espiritual, o Padre Adão foi um assistente social nato: mediou conflitos, apoiou as famílias mais desfavorecidas num tempo de forte emigração e trabalhou lado a lado com, Custódio Henriques Braz, para garantir a coesão e a paz social na transição da aldeia. 3. Professor Paulo Casalta: O Farol da Instrução e da Cultura (1909 - 1950?) Numa época em que o analfabetismo ainda isolava muitas comunidades rurais, o Professor Paulo Casalta foi a chave para a emancipação da juventude de Bucos. A educação era o verdadeiro motor de elevação material. Ao garantir que os filhos dos lavradores e das novas casas (como a da Vendeira, que acolheu a primeira escola, e as que se seguiram) aprendessem a ler, a escrever e a contar, o Professor Casalta preparou a população para os desafios do Portugal moderno e da emigração, deixando um legado de respeito humano imensurável. O Legado Coletivo A fisionomia de Bucos mudou porque as pedras e as novas casas avançaram, mas a alma da freguesia moldou-se graças a estes três homens. Enquanto o Custódio Henriques Braz geria, reivindicava e liderava o progresso físico e político, o cuidava da comunidade e o Padre Adão, Professor Casalta abria as mentes. O falecimento de Custódio Braz em 1980 marcou o fecho de um ciclo de ouro de liderança carismática e bairrista que hoje faz parte da história nobre de Cabeceiras de Basto.

Seculo XX - Século Transformador da Estrutura Social e Fisionómica de Bucos

O século xx foi, sem dúvida, o período mais transformador para a fisionomia e a estrutura social de Bucos. A aldeia rompeu definitivamente com o isolamento do Antigo Regime e com a dependência exclusiva das sete casas medievais originais em redor da Fonte da Vila. Este surto de progresso material e demográfico assentou em três grandes pilares económicos e sociais: • O Dinheiro dos "Brasileiros emigrantes": A emigração para o Brasil no final do século XIX e primeiras décadas do século XX foi o grande motor de capital. Homens que partiram da terra como lavradores pobres regressaram com posses e investiram na construção de novas habitações (como a Casa do Coucieiro). Estas novas casas introduziram cantarias finas, janelas amplas e telhados modernos, desafiando a arquitetura de granito escuro e fechado da Bucos medieval. • Novas Dinâmicas de Subsistência e Comércio: A economia deixou de ser puramente de subsistência feudal. O aparecimento de espaços como a Casa da Vendeira introduziu o comércio local (a venda) e a instrução primária (a escola), fixando as novas gerações e permitindo que pequenos proprietários prosperassem materialmente sem dependerem dos antigos senhores das grandes quintas. • A Fragmentação das Terras e Novas Alianças: O crescimento demográfico obrigou à divisão de antigos casais agrícolas e à edificação de novas casas de lavoura (como a Casa do Ferreiro, Casa de Cortezelas, ou Casa de José, Casa dos Santos, Casa de Bento, Casa do Martins, Casa de Piornedo). As famílias tradicionais da terra cruzaram-se com estas novas elites económicas através de casamentos estratégicos, fundindo o prestígio dos velhos apelidos com a riqueza material do novo século.

Inquerito Eclesiastico de 1288, as 7 Casas Mencionadas para pagamento de Foral, no tempo do Rei D. Dinis

As 7 Casas de Bucos, na altura São João Batista de Bucos, para Pagamento de Foral 1. Casa da Senra: O termo "Senra" designava historicamente uma parcela de terra arável e fértil, habitualmente não murada, destinada ao cultivo de cereais. Era uma das principais casas agrícolas da periferia imediata do núcleo da vila. 2. Casa da Pereira: Esta designação deu origem direta a ramos locais de famílias com o apelido Pereira (conforme mencionado na nossa primeira abordagem às famílias de Bucos). Simbolizava uma propriedade originalmente marcada por árvores de fruto ou por uma linhagem que adotou o topónimo. 3. Casa de Angustinha: Um nome marcadamente identitário e específico, associado a uma antiga matriz de posse microtoponímica ou familiar da zona central de Bucos. 4. Casa do Barreiro: Localizada junto a terrenos ricos em argila (barreiros), fundamentais para a construção e manufatura local, constituindo um importante vínculo de produção. 5. Casa do Ruival: Topónimo associado a zonas de vegetação densa ou a características cromáticas do solo/flora (ruivo/ruival), historicamente ligada à exploração de gado e pastagens. 6. Casa de Sanoane: Uma evolução fonética medieval de São João (Sancti Ioannis). Isto indica que a propriedade estava originalmente associada a uma antiga ermida, capela ou património eclesiástico que posteriormente foi aforado a uma família secular para exploração e pagamento de tributo. 7. Casa de Entrecurros: O nome descreve perfeitamente a sua geografia defensiva ou de pastorícia — uma habitação situada "entre currais" ou cercados de gado, tipologia muito comum na transumância e economia serrana de Cabeceiras de Basto.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

PASSEIO HISTÓRICO POR BUCOS Os Espigueiros, as Eiras e as Casas Agrícolas

Caminhada Solidária a favor da Liga Portuguesa Contra o Cancro 25 de julho de 2027 | 8h00 Missa na Igreja de Paróquia de São João Batista de Bucos 10 horas Concentração: Casa de Sanoane de Cima, antiga casa agrícola, junto ao Cruzeiro de Bucos. Uma caminhada pela história, pela tradição e pela solidariedade Bucos guarda nas suas casas agrícolas, nos espigueiros e nas eiras uma parte importante da memória da sua gente. Cada construção conta uma história de trabalho, de família, de partilha e de uma agricultura que marcou profundamente a vida da freguesia. Este passeio histórico pretende dar a conhecer esse património, percorrendo ruas, lugares e caminhos antigos, numa iniciativa que une a valorização da identidade local à solidariedade com a Liga Portuguesa Contra o Cancro. O PERCURSO HISTÓRICO 8h00 — Primeiro momento: Casa de Sanoane de Cima, Rua da Portela, Balteiro, hoje, Nossa Senhora dos Caminhos. O passeio tem início na Casa de Sanoane de Cima, antiga casa agrícola, junto ao Cruzeiro de Bucos. Aqui, os participantes terão oportunidade de conhecer a casa, a sua eira e o seu espigueiro, testemunhos de uma antiga organização da vida rural e apreciar um café.
Seguimos pela Rua da Portela, onde observaremos: O espigueiro da Casa do Ferreiro; O espigueiro da Casa do Baltazar. 8h15 — Segundo momento: as casas agrícolas do centro de Bucos: Manuel de Oliveira, Capela, Tras do Cerco e Maria do Trigo Chegamos à casa habitacional de Manuel de Oliveira, com o seu característico e emblemático espigueiro, a eira e a casa anexa, situada junto à Casa da Lã e à Junta de Freguesia. Conheceremos também a história do espigueiro da Capela, cuja origem está associada à intenção de construir uma capela para a celebração da missa nova do filho da família da Casa Martins. Segundo a tradição aqui recordada, o jovem faleceu antes de receber a nomeação de noviço. Mais tarde, o edifício foi vendido e passou a servir como espigueiro da casa agrícola da família Freitas, enquanto o antigo adro se transformou em eira. Continuamos pela Rua de Trás do Cerco, onde poderemos observar: O espigueiro e a eira da casa de Manuel Pires, conhecido por «O Transmontano»; O espigueiro da Casa do Albano, antiga Casa dos Santos; O espigueiro da Casa da Maria do Trigo. 8h30 — Terceiro momento: as casa agrícolas do nucleo "coração agrícola de Buco": Ruival, Pereira, Coucieiro, Angustinha e Senra Aqui se concentravam as principais casas agrícolas da Freguesia, local de diversas fontes de água. Chegamos à Casa do Ruival e à Casa da Pereira, com os seus espigueiros, eiras e casas agrícolas, que nos recordam a importância destas propriedades na vida rural de Bucos. Nas proximidades, encontramos a Casa Agrícola do Coucieiro, hoje ligada a Fernando Brás, com a sua eira e o seu espigueiro. No largo da Fonte da Vila, observaremos: O espigueiro da Casa Agrícola de Angustinha; A Casa Agrícola da Senra, com a sua eira e o seu espigueiro. Seguimos até à Igreja Paroquial de Bucos, onde faremos uma pausa de recolhimento, concentração e fé. Continuaremos depois pelo espigueiro da Casa de Sanoane de Baixo, situado em frente à Capela Mortuária da freguesia. 8h45 — Quarto momento: Caminhada por Sanoane, Cruz de Prados, Pontezinhas e Carrazedo Em Carrazedo, teremos oportunidade de conhecer: O espigueiro comunitário do lugar de Carrazedo de Bucos; O espigueiro da Casa do Pereira. Este troço permite recordar não só a importância das casas agrícolas, mas também o valor dos espaços e das construções que serviram a comunidade ao longo das gerações. 9h10 — Regresso à Casa de Sanoane de Cima O regresso será feito pelo mesmo caminho, até ao Largo do Cruzeiro e à Casa de Sanoane de Cima, ponto de partida e de chegada deste passeio. Bucos: património, memória e solidariedade Mais do que uma caminhada, este será um encontro com a história de Bucos, com as suas famílias e com o património que importa preservar e transmitir às gerações futuras. Caminhamos pela nossa história, valorizamos as nossas raízes e unimos os nossos passos numa causa solidária: a luta contra o cancro. Participe! Pela memória de Bucos, pela preservação do nosso património e pela solidariedade com a Liga Portuguesa Contra o Cancro.
Bucos e os seus Espigueiros O milho, a tradição, o trabalho e a memória de um povo 5 Texto I — Bucos, terra de milho e de espigueiros Bucos, freguesia serrana do concelho de Cabeceiras de Basto, é uma terra profundamente ligada à cultura do milho, aos trabalhos agrícolas tradicionais e aos seus espigueiros, também conhecidos localmente por canastros. Estes elementos fazem parte da identidade da aldeia, testemunhando uma época em que a agricultura constituía a principal atividade económica e a base do sustento de numerosas famílias. Durante muitas gerações, o milho foi uma das culturas fundamentais da economia doméstica das famílias agrícolas de Bucos. Era da terra que se retirava grande parte do alimento necessário à sobrevivência, numa vida marcada pelo trabalho árduo, pela dependência das estações do ano e pela capacidade de aproveitar os recursos disponíveis. Praticamente todas as casas agrícolas, independentemente da sua dimensão e condição económica, dispunham de terrenos destinados à produção anual do milho. A quantidade de terra cultivada variava de família para família, tal como variavam os recursos, os animais, os instrumentos de trabalho e a capacidade de produção. Umas famílias possuíam explorações maiores e mais produtivas; outras cultivavam parcelas mais pequenas, suficientes para complementar o sustento do agregado familiar. O milho não era apenas uma cultura agrícola. Era uma necessidade, uma riqueza e uma garantia de sobrevivência. À sua volta organizava-se uma parte significativa da vida económica e social de Bucos. Texto II — O ciclo do milho: da semente à espiga O ano agrícola do milho era composto por uma sucessão de trabalhos que exigiam esforço, dedicação e, muitas vezes, a colaboração de toda a família. A preparação da terra e a plantação anunciavam o início de um novo ciclo. Seguiam-se os cuidados com a cultura, a rega, quando necessária, e o sachar do milho, trabalho realizado para eliminar as ervas daninhas e favorecer o crescimento das plantas. Ao longo dos meses, acompanhava-se o desenvolvimento da cultura, na esperança de que o tempo fosse favorável e a colheita compensasse o esforço investido. Chegado o momento próprio, procedia-se ao corte do milho. As plantas eram reunidas e transportadas para junto das eiras ou para os espaços de trabalho das casas agrícolas, onde se realizavam as desfolhadas. Era um dos momentos mais característicos da vida rural. As espigas eram retiradas das plantas, separadas e preparadas para a secagem. Depois, vinha a malha do milho, destinada a separar o grão do carolo. Uma vez limpo e seco, o milho era guardado nas caixas de madeira, onde ficava armazenado para ser utilizado ao longo do ano. Cada etapa tinha a sua importância. Perder parte da colheita podia representar uma dificuldade séria para uma família. Por isso, guardar bem o milho era tão importante como produzi-lo. Neste ciclo agrícola, o espigueiro ocupava um lugar central. Era o edifício destinado a proteger e conservar as espigas, permitindo a sua secagem e preservação. Mais do que uma construção rural, era o símbolo visível do trabalho de um ano inteiro e da capacidade de uma família assegurar o seu sustento. Texto III — Os espigueiros: construções que contam a história de Bucos 11 Os espigueiros de Bucos são testemunhos materiais de uma economia agrícola que moldou a paisagem, a arquitetura e os hábitos das suas gentes. Construídos geralmente junto das eiras e das casas agrícolas, encontravam-se estrategicamente colocados para facilitar o transporte do milho, as tarefas da desfolhada e o armazenamento das espigas. A sua localização não era fruto do acaso: correspondia às necessidades práticas de uma comunidade que organizava os espaços em função do trabalho agrícola. As características dos espigueiros variavam de acordo com a quantidade de milho produzida, a dimensão da exploração e as possibilidades económicas dos proprietários. Havia canastros pequenos, médios e grandes, com diferentes comprimentos e capacidades de armazenamento. A sua dimensão podia ser descrita pelo número de lanços ou partes que os constituíam: um, dois, três, quatro, cinco ou mais. Quanto maior fosse a produção agrícola e maior a necessidade de armazenamento, maior poderia ser o espigueiro. Estas diferenças permitem-nos compreender que os canastros não eram apenas elementos arquitetónicos. Eram também sinais da organização económica das famílias, da importância da agricultura e da capacidade produtiva de cada casa. A arquitetura tradicional adaptava-se, assim, às necessidades concretas da vida quotidiana. A pedra, a madeira e os restantes materiais utilizados eram trabalhados para responder a uma finalidade essencial: proteger o milho e assegurar que o trabalho de muitos meses não se perdia. Hoje, estes espigueiros representam uma herança patrimonial de grande valor. Preservá-los é conservar uma parte da história de Bucos, da sua paisagem rural e da memória coletiva das suas famílias. Texto IV — As desfolhadas: trabalho, entreajuda e festa 12 A cultura do milho não se limitava ao trabalho individual de cada casa agrícola. Era também uma expressão de solidariedade e de convivência entre as famílias de Bucos. Nas lavradas, no sachar e nas desfolhadas, a entreajuda desempenhava um papel fundamental. Quando uma família precisava de mais braços para concluir determinada tarefa, os familiares, vizinhos e amigos juntavam-se para ajudar. Noutro dia, essa colaboração podia ser retribuída noutra propriedade, numa prática assente na confiança, na reciprocidade e no sentido de comunidade. As desfolhadas tinham um significado especial. Eram momentos de trabalho coletivo, mas também ocasiões de encontro, conversa, brincadeira, cantigas e partilha. À medida que as espigas eram desfolhadas, criavam-se oportunidades para fortalecer os laços familiares e de vizinhança. O trabalho tornava-se, assim, uma pequena festa comunitária. A dureza das tarefas era compensada pelo convívio, pela alegria de estar em grupo e pela satisfação de cumprir mais uma etapa do ciclo agrícola. Estas manifestações constituíam uma forma de transmissão cultural. Os mais velhos ensinavam aos mais novos os gestos e os conhecimentos herdados de gerações anteriores. As crianças cresciam a observar e a participar, aprendendo que a agricultura exigia não apenas força física, mas também organização, paciência e cooperação. As desfolhadas de Bucos pertencem a uma memória que importa preservar. Recordá-las é reconhecer o valor de uma sociedade rural em que o trabalho, a família e a entreajuda estavam profundamente ligados. Texto V — O espigueiro comunitário de Carrazedo Entre os testemunhos mais singulares da tradição dos espigueiros em Bucos destaca-se o espigueiro comunitário do lugar de Carrazedo. A sua particularidade reside na dimensão e na utilização comum por diversas famílias, constituindo um exemplo significativo de uma forma de organização agrícola em que o espaço de armazenamento podia ser partilhado. Numa sociedade em que a produção do milho representava uma parte essencial da economia doméstica, a existência de um espigueiro comum revela a importância atribuída à conservação das colheitas e à utilização dos recursos disponíveis. A construção destaca-se pela sua dimensão e pelo seu significado histórico e etnográfico. A possibilidade de ser o maior espigueiro do Minho constitui uma afirmação que merece ser devidamente investigada e documentada através de medições, comparação com outros exemplares e consulta de fontes patrimoniais. Independentemente dessa classificação, o espigueiro de Carrazedo merece atenção pela sua singularidade e pela memória que guarda. Não é apenas uma construção destinada ao milho: é também um testemunho de práticas comunitárias, de relações de vizinhança e de uma economia rural que procurava responder às necessidades de várias famílias. Valorizar este património significa reconhecer que a história de Bucos não se encontra apenas nos documentos escritos. Está também inscrita nas pedras, nas madeiras, nos caminhos, nas eiras e nos edifícios que resistiram à passagem do tempo. Texto VI — Casa de Sanoane de Cima e Casa de Sanoane de Baixo: dois espigueiros, duas realidades agrícolas 9 Na história agrícola de Bucos, os espigueiros das casas tradicionais permitem-nos compreender as diferenças entre as explorações e as possibilidades económicas das famílias. A Casa de Sanoane de Cima e a Casa de Sanoane de Baixo constituem exemplos que merecem ser observados e estudados no contexto da arquitetura rural e da economia agrícola local. O canastro da Casa de Sanoane de Cima, de menor dimensão, com a sua organização em lanços, enquadra-se na imagem de uma casa agrícola com necessidades de armazenamento proporcionais à sua produção. A sua dimensão poderá sugerir uma exploração de escala intermédia, embora essa interpretação deva ser confirmada através da história da propriedade, da área cultivada e da produção de milho ao longo do tempo. Por sua vez, o espigueiro da Casa de Sanoane de Baixo, constituído por três lanços, apresenta uma capacidade de armazenamento aparentemente superior. Essa diferença poderá indicar uma maior necessidade de guardar milho e, eventualmente, uma exploração agrícola mais produtiva ou com maiores recursos. Importa, contudo, não retirar conclusões definitivas apenas a partir do tamanho dos canastros. A dimensão de um espigueiro pode refletir diferentes circunstâncias históricas, alterações da propriedade, necessidades familiares e opções de construção. Ainda assim, a comparação entre os dois exemplares abre uma perspetiva interessante sobre a vida económica das antigas casas agrícolas de Bucos. Cada espigueiro conta uma história. Uns revelam a dimensão modesta de uma exploração familiar; outros testemunham uma capacidade de produção e armazenamento mais ampla. Em conjunto, mostram-nos como a arquitetura rural se adaptava às necessidades e às condições de vida de cada família. Para a Casa de Sanoane de Cima, preservar o seu canastro significa também preservar uma parte da memória do trabalho agrícola que sustentou gerações. No âmbito do projeto do Ecomuseu da Casa de Sanoane de Cima, este património pode assumir um papel educativo, permitindo às gerações atuais conhecer o ciclo do milho, as técnicas tradicionais e a importância da agricultura na formação da identidade de Bucos. Texto VII — Bucos e os seus espigueiros: um património que não podemos deixar desaparecer 4 Bucos possui uma herança rural que merece ser conhecida, estudada e transmitida às gerações futuras. Os seus espigueiros são parte essencial dessa herança, porque representam uma forma de viver em que a terra, o trabalho e a família estavam unidos por uma relação de profunda dependência. Durante séculos, o milho alimentou famílias, sustentou a criação de animais e ajudou a organizar a economia das casas agrícolas. O ciclo do milho determinava os ritmos do ano e mobilizava a comunidade em tarefas que exigiam cooperação e conhecimento. As eiras, os canastros, os campos de cultivo e os espaços de armazenamento constituíam partes de um mesmo sistema. Não se compreende verdadeiramente um espigueiro sem conhecer o milho que nele era guardado, nem se compreende a cultura do milho sem recordar as pessoas que o semeavam, sachavam, regavam, cortavam, desfolhavam e malhavam. É por isso que a preservação dos espigueiros não deve limitar-se à conservação das suas estruturas físicas. Importa igualmente recolher testemunhos orais, fotografias antigas, histórias de família, designações locais e memórias das práticas agrícolas. O espigueiro comunitário de Carrazedo, os canastros das casas agrícolas e os exemplares associados a casas tradicionais, como Sanoane de Cima e Sanoane de Baixo, podem integrar um percurso patrimonial dedicado à cultura do milho e à arquitetura rural de Bucos. Esse trabalho permitiria valorizar o património material e imaterial da freguesia, aproximar a população da sua história e criar novas oportunidades para a divulgação cultural e turística do território. Bucos não é apenas uma terra que conserva espigueiros. É uma terra cuja história se encontra profundamente ligada à cultura do milho e à capacidade das suas gentes de transformar o trabalho da terra em sustento, tradição, solidariedade e identidade. Preservar os espigueiros de Bucos é preservar a memória de um povo. É manter viva a história de gerações que fizeram da agricultura o fundamento da sua vida e que deixaram, na paisagem da aldeia, testemunhos duradouros da sua sabedoria, do seu esforço e da sua dignidade. Proposta para o Ecomuseu da Casa de Sanoane de Cima Estes textos poderão constituir a base de um pequeno livro ou de um núcleo expositivo com o título “Bucos e os seus Espigueiros — A Cultura do Milho e a Memória de um Povo”, associado ao Ecomuseu da Casa de Sanoane de Cima. Uma publicação desta natureza poderia incluir: - Fotografias antigas e atuais dos espigueiros de Bucos. - Um levantamento dos canastros, identificando as suas dimensões e o número de lanços. - Um capítulo especial dedicado ao espigueiro comunitário de Carrazedo. - A história dos espigueiros das Casas de Sanoane de Cima e de Baixo. - A descrição das diferentes fases do ciclo do milho. - Testemunhos de antigos agricultores sobre as lavradas, as desfolhadas e a malha do milho. - Um mapa dos principais espigueiros e das antigas eiras da freguesia.

sábado, 10 de outubro de 2026

Bucos e os seus espigueiros Em Bucos, terra de tradições e de gente ligada à agricultura, os espigueiros fazem parte da paisagem e da memória de muitas gerações. Construídos em pedra e madeira, testemunham uma época em que o milho era uma das principais culturas dos agricultores e representava uma parte essencial do sustento das famílias. Depois da colheita, as espigas eram guardadas nos espigueiros, onde secavam e ficavam protegidas para serem conservadas. Cada espigueiro conta uma história de trabalho, dedicação e sabedoria popular. Recorda os campos de milho, as desfolhadas, a entreajuda entre vizinhos e os costumes de uma comunidade que aprendeu a viver dos frutos da terra. Hoje, estas construções tradicionais são muito mais do que vestígios do passado: são um património que importa preservar e valorizar, porque guardam a identidade rural de Bucos e a memória dos nossos antepassados. Bucos e os seus espigueiros — um legado de pedra, milho e tradição, onde a história da terra continua viva.

Bucos e seus Espigueiros

Convite para colaborar na caminhada “Os Espigueiros por Bucos” Exmo. Senhor José Henriques, Tenho acompanhado, com muito interesse, a sua participação nas caminhadas organizadas em Cabeceiras de Basto, nomeadamente a forma simpática como dá visibilidade às tradicionais bolas de Berlim. Nesse sentido, gostaria de lhe apresentar uma iniciativa que estou a preparar: uma caminhada intitulada “Os Espigueiros por Bucos”, com o objetivo de valorizar o património, as tradições e a beleza da nossa terra, associando também esta iniciativa a uma causa solidária, com a colaboração da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Esta caminhada pretende ainda dar destaque à histórica Casa de Sanoane de Cima, que, em 2027, assinalará 350 anos de história, mantendo-se sempre na mesma família, um facto que merece ser recordado e valorizado. Gostaria de saber se estaria disponível para colaborar nesta iniciativa e se aceitaria o convite para assumir o papel de manager do evento, ajudando na sua divulgação, dinamização e promoção junto da comunidade. Seria um gosto poder contar consigo neste projeto, que pretende unir património, convívio, tradição e solidariedade. Agradeço desde já a sua atenção e fico a aguardar, com esperança, a sua resposta. Com os melhores cumprimentos,

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Cristiano Ronaldo, Messi e o abismo

Um dia, todos lembrarão com saudosismo dos domingos em que o mundo ligava a TV para ver os duelos entre Cristiano Ronaldo e Lionel Messi em El Clásico. Quantos finais de semana passamos vendo Cristiano massacrar defesas no sábado, Messi desconcertar marcadores no domingo, e vice-versa. O tempo passou, a contragosto deles, nosso, e dos Deuses do Futebol. Mas o fim dessa era está mais próximo do que nunca, embora um abismo separe o adeus dessas duas lendas. Cristiano foi mandado embora pelo treinador selecionador Jorge de Jesus e Messi foi homenageado pela Argentina. Portugal e Argentina, ao longo desses anos, jogaram por Ronaldo e Messi. Afinal, como não tentar montar um time para o benefício dos dois grandes astros do esporte neste século? Ronaldo ganhou uma Eurocopa e duas Nations Leagues com Portugal. Messi, uma Copa do Mundo e duas Copas América com a Argentina.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Jorge de Jesus versus Cristiano Ronaldo. Assassinato moral na praça pública!

Jorge Jesus morde e assopra Não esperava um murro na mesa. Nunca acreditei no fechamento total de portas, muito menos no assassinato moral em praça pública de Cristiano Ronaldo por parte de Jorge Jesus. Também não esperava, de todo, ouvir de um treinador com tamanha personalidade — e ego de sobra — que é um jogador, seja ele quem for, a decidir se vai ou não ser chamado à seleção. Num espaço de (novamente) 30 minutos, Jesus reforçou a sua autoridade, chutou para o canto qualquer pedido de desculpa, mas se colocou como refém de Ronaldo. Contradição pura. Reconheço que o tema é bastante complexo. Altamente espinhoso. Sentado, no ar condicionado, é muito fácil encontrar soluções e definir o melhor caminho. Dito isso, um discurso de subserviência é inaceitável. JJ estendeu a passadeira vermelha para o capitão que abandonou o navio. "Esqueceu" que lá atrás disse categoricamente, e bem, que há estatutos diferentes, mas que as regras são as mesmas para todos. Pedro Proença foi mais longe. O presidente fingiu que nada aconteceu e usou praticamente todos os adjetivos possíveis dentro da língua portuguesa para prestar vénia ao jogador. Por fim, saiu a correr. Fugiu. Surpreendeu um total de zero pessoas. Custava apenas deixar as portas abertas para uma eventual conversa de reaproximação e esperar pelas palavras do próprio Cristiano Ronaldo? A jogada de antecipação acabou por ser a confirmação de mais um engolir de sapos. Na minha vida, pela primeira vez, asisto à novela "Jorge de jesus morde e assopra"

sábado, 3 de outubro de 2026

Bucos e Suas Cantigas

 O Eco das Cantigas na Minha Vida

Nasci em 1947, no seio de uma terra onde a música e a identidade se confundem com a própria alma das pessoas. Sou filho de uma das cantadeiras do Rancho Etnográfico "As Capuchinhas de Bucos", um grupo emblemático que, entre os anos de 1938 e 1945, levou o nome e as tradições da nossa aldeia bem longe. Cresci a saber que a minha mãe e as suas companheiras tinham feito história. Ficou registado nos escritos da época o orgulho com que o Rancho, conjuntamente com o Grupo do Jogo do Pau de Bucos, participou na receção oficial ao Dr. António de Oliveira Salazar, em Braga. Também a história do célebre concurso da "Aldeia Mais Portuguesa de Portugal", em 1938, guarda a memória escrita do brilho que elas levaram ao abrilhantamento de Carrazedo de Bucos. Mas, para mim, o verdadeiro maior espetáculo acontecia dentro das nossas quatro paredes e nos campos da nossa infância. Como filho de uma cantadeira, cresci embalado por uma banda sonora permanente. Lá em casa, todos os momentos eram bons para cantar: arrumavam-se os salões a cantar, idas e vindas da eira e o trabalho duro da terra — fosse na apanha dos feijões, das batatas ou das couves, fosse no caminho de ida e volta para ir buscar a água — era sempre aliviado pela força da voz. Naquela época, ouvi e cansei-me de ouvir modas que ficaram gravadas a ferro e fogo na minha memória. Canções de trabalho, de romance e de romaria, tais como:Ó Ciranda, O Pezinho, Ao Passar o Ribeirinho, Ao Senhor da Serra, No Alto Daquela Serra, Videirinha Chora, Alecrim, Barqueiro, Ó Rosa, Ó Padeirinha Formosa, Ó José Aperta o Laço, Não Quero que Vás à Monda, Ó Margarida Moleira, Trai Trai, Ó Fresca da Ramalhada, Laranja, Laranja e o Limão, Água Leva o Regadinho, Josezito, Chula, Ó Ana, Vareira, Cana Verde, Malhão, Mariazinha é Tecedeira, Dobadoira, Ó Tirana, Verdegar, Verde Gaio, Vida que Vira, Ó Ferreiro Guarda a Filha e Ribeira Vai Cheia, ó padeirinha formosa, coradinha, senhra do alívio, luisinha, sim carolina, daqui para ali, bate o pé. O tempo passou, a vida correu e, passados 50 ou 60 anos, o cancioneiro da minha mente continuou a crescer, acolhendo outras modas que se juntaram à nossa identidade, como:O Mar Enrola na Areia, Eram pra aí Sete e Pico, Tim Tim Nós Somos de Bucos, Carrazedo Linda Terra, Ia por aí Abaixo, não te encoste à parreira, os meus óculos de sol. Estas são as canções de que me lembro no momento. Mais do que simples letras ou melodias, elas são o retrato de um tempo, a herança da minha mãe e a prova viva de que Bucos sempre soube cantar a sua própria história. Deixo-as aqui registadas, para que o tempo não as apague e para que os vindouros saibam como era bonita a nossa terra.