A Casa de Sanoane d Bucos fica situada no Largo de Sanoane ou do Cruzeiro, Lugar da Portela.
domingo, 21 de dezembro de 2025
A Casa de Sanoane de Cima, a Passagem do Ano e o Menino Lourenço
No alto da aldeia estava a Casa de Sanoane de Cima.
Era uma casa antiga, feita de pedra e cheia de histórias.
Todos diziam que ela sabia guardar memórias e sonhos.
Na noite da passagem do ano, a casa acordava diferente.
Parecia sorrir, porque sabia que ia receber muita gente querida.
A família Braz e os amigos chegavam aos poucos.
Era como se todos fossem parte de uma só corrente,
ligados pelo carinho e pela amizade.
A música enchia a sala.
Os risos dançavam no ar.
As mesas estavam cheias de comida que aquecia o corpo e a alma.
Lá fora, os foguetes subiam alto
e pintavam o céu com luzes coloridas.
Era o novo ano a chegar!
No meio de tudo estava o menino Lourenço.
Com olhos curiosos e sorriso brilhante,
ele observava cada detalhe daquela noite mágica.
Os mais velhos olhavam para Lourenço com ternura.
Ele era o futuro, a esperança,
a prova de que a vida continua.
Quando o relógio bateu meia-noite,
todos se abraçaram com alegria.
Um novo ano tinha começado!
Naquela casa, tudo se uniu numa só torrente:
união, momento, alimento e convívio.
O passado encontrou o presente
e abriu caminho para o amanhã.
E assim, na Casa de Sanoane de Cima,
a passagem do ano transformou-se em encanto.
Com o menino Lourenço,
a esperança iluminou o novo caminho.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
À Casa de Sanoane de Cima
Na Casa de Sanoane de Cima
o tempo aprende a ficar.
As paredes guardam vozes,
passos antigos, risos de agora,
e o sol entra devagar
como quem pede licença.
Na Rechã, a terra abre-se em calma,
chão de encontros e partidas,
onde o vento conta histórias
e o silêncio sabe os nomes
de quem por ali passou.
O Cruzeiro ergue a sua sombra,
cruz de pedra, fé sem pressa,
vigia caminhos, protege memórias,
reza baixinho pela aldeia
todas as manhãs.
A Figueira estende os braços largos,
mãe de sombra e doçura,
oferece frutos ao verão
e abrigo às conversas lentas
dos fins de tarde.
O Canastro, fiel guardião,
guarda o pão, o milho, o saber,
cesto de mãos calejadas,
onde a fartura era esperança
e o trabalho tinha orgulho.
E a Fonte, voz da terra,
canta água clara e antiga,
mata a sede do corpo e da alma,
espelho onde a aldeia se vê
igual a si mesma.
Casa, Rechã, Cruzeiro, Figueira,
Canastro e Fonte —
são mais que lugares:
são um só coração de pedra e raiz,
batendo devagar
na memória viva de Sanoane de Cima.
domingo, 14 de dezembro de 2025
O Canastro da Casa de Sanoane de Cima e o Menino Fernando
Na Casa de Sanoane de Cima, entre muros antigos e caminhos de terra batida, havia um canastro grande, feito de madeira, feito por mãos sábias. Ficava em frente à parede da cozinha, cheirando a pão, a milho e a histórias guardadas.
O menino Fernando gostava muito daquele canastro. Para os adultos, era apenas uma casa onde se guardavam espigas, broas e castanhas. Mas para Fernando, o canastro era um cofre de segredos.
Todas as manhãs, antes de sair para brincar, Fernando espreitava lá para dentro.
— Bom dia, senhor canastro — dizia em voz baixa. — Dormiste bem?
O canastro rangia levemente, como se respondesse. Quando estava cheio, parecia orgulhoso; quando estava quase vazio, Fernando sentia que ele pedia paciência e esperança.
Num outono generoso, o milho chegou dourado e abundante. O canastro foi enchido até à borda, e Fernando ajudou, levando espigas pequenas com muito cuidado. A cada espiga colocada, sentia que estava a guardar o fruto do trabalho da família.
Nos dias frios de inverno, quando o vento assobiava nas frestas da casa, Fernando sentava-se perto do canastro. Imaginava que lá dentro viviam grãos mágicos que protegiam a casa da fome e do medo. O canastro era como um guardião silencioso.
Certa vez, a farinha começou a faltar. Fernando viu o canastro quase vazio e ficou triste. Então lembrou-se do que o avô dizia:
— Enquanto houver partilha, o canastro nunca fica verdadeiramente vazio.
E assim foi. A família dividiu o pouco que tinha, e na primavera seguinte a colheita voltou a encher o canastro, mais bonito e forte do que antes.
Fernando cresceu, mas nunca esqueceu aquele canastro da Casa de Sanoane de Cima. Aprendeu com ele que guardar é importante, mas partilhar é ainda mais.
E dizem que, até hoje, o velho canastro sorri sempre que uma criança se aproxima com respeito e carinho.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2025
A Rechã de Sanoane
Na rechã de Sanoane, o tempo abranda,
sobre a terra aberta ao céu antigo,
ergue-se o cruzeiro, guardião de silêncios,
cruz de pedra onde a fé repousa e vigia.
Ali, os passos antigos deixaram sinais,
vozes de outrora misturam-se ao vento,
rezas baixas, promessas simples,
a sombra do cruzeiro alonga-se na tarde.
A Casa de Sanoane de Cima observa,
de janelas abertas ao vale e à memória,
paredes que guardam risos, lutos e esperança,
coração de pedra onde a vida sempre voltou.
Entre a casa e o cruzeiro corre a história,
feita de encontros, partidas e regresso,
terra partilhada, chão de comunidade,
onde cada pedra sabe o nome de quem passou.
E quando o sol se deita por trás dos montes,
a rechã fica em silêncio dourado,
como se o lugar inteiro rezasse baixinho,
agradecendo o dia, guardando o amanhã.
A videira da Rechã de Sanoane
Na aldeia serrana de Bucos, a Casa de Sanoane de Cima era guardada por uma videira colossal. Seus braços lenhosos teciam um toldo vivo sobre o caminho público, a rechã do Cruzeiro e a casa, bebendo da mesma fonte que saciava o povoado, as lavadeiras e os animais. Dessa simbiose sagrada, brotavam três mil quilos de uvas americanas. Antes da colheita, eram festim para crianças e pássaros; depois, transformavam-se no néctar mais apreciado da freguesia — um vinho saboroso, maturado à sombra do cruzeiro, onde o divino e o terreno se entrelaçavam em cada momento.
A Macieira da Casa de Sanoane de Cima e o Menino Lourenço
Na aldeia tranquila de Bucos, havia uma casa antiga, a Casa de Sanoane de Cima, com um quintal que todos conheciam. No meio desse quintal crescia a árvore mais especial de toda a região: uma macieira enorme, de tronco largo, sombra fresca e maçãs vermelhas como o brilho de um sorriso.
Essa macieira tinha fama. Diziam que ela só dava maçãs a quem tivesse o coração bondoso.
O menino Lourenço, curioso e cheio de energia, adorava brincar perto dela. Todas as tardes ele corria pelo quintal, inventava aventuras e, às vezes, sentava-se à sombra da velha árvore para ouvir o vento a passar pelos ramos.
Um dia, quando se aproximou da macieira, Lourenço ouviu um som muito baixinho:
— “Olá, Lourenço…”
O menino arregalou os olhos.
— “Quem falou?”
— “Fui eu…” respondeu uma voz suave. “Sou a macieira.”
Lourenço ficou maravilhado. Uma árvore que falava! A macieira explicou que só falava com crianças especiais — crianças que tratavam bem a natureza, os animais e as pessoas.
— “Vejo que estás sempre a cuidar de mim,” disse a macieira. “Tiras as folhas secas, afugentas os bichos que me mordem, e nunca partes os meus ramos. Por isso, quero dar-te algo.”
De um dos galhos mais altos caiu uma maçã brilhante, dourada por dentro, como se guardasse o sol.
— “Esta maçã é mágica,” disse a macieira. “Se a partilhares, ela nunca acaba.”
Lourenço ficou tão feliz que correu para mostrar a maçã aos amigos da aldeia. Partilhou-a com todos — com a Dona Rita, que vivia sozinha; com o Tiago, que estava triste; com a sua irmã pequena, que adorava fruta. E a maçã nunca diminuía.
No final do dia, Lourenço voltou à macieira e disse:
— “Obrigado. Hoje fiz muita gente sorrir.”
A macieira balançou os ramos, contente:
— “É por isso que te escolhi, Lourenço. O mundo precisa de crianças que sabem que a verdadeira magia está em partilhar.”
E desde esse dia, a macieira da Casa de Sanoane de Cima continuou a ser a árvore mais especial da aldeia — porque guardava o segredo de um menino bondoso e de uma maçã que nunca acabava.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
Lugar da Portela – Bucos
Lugar da Portela – Bucos
O Lugar da Portela, atravessado pela Rua da Portela, é um dos recantos mais característicos de Bucos — uma pequena varanda de pedra aberta sobre os campos verdejantes, onde os ribeiros lá ao fundo serpenteiam pela planície como fios de prata ao sol. Dali, avista-se o mosaico dos telhados do casario, em torno da igreja, num aglomerado que conta séculos de vida rural e devoção.
Era neste lugar que funcionava a antiga escola de Bucos, onde muitas gerações aprenderam as primeiras letras ao som das estações e do toque dos sinos. À entrada, de um lado ergue-se o Cruzeiro, firme guardião de caminhantes e memórias. Do outro, acolhe-se o nicho da Senhora dos Caminhos, pequeno santuário onde, desde sempre, os moradores deixavam uma prece antes de seguir viagem.
Lá no alto do outeiro repousa o cemitério, silencioso e sereno, olhando o vale como um livro de histórias fechadas.
Além na Portela existiu também o forno comunitário, onde as famílias de Bucos se reuniam para cozer o pão — era um ponto de encontro, de trabalho e de conversa.
A poucos passos, instalaram-se os ferreiros, com as suas forjas, bigornas e martelos a marcar o ritmo dos dias. Daí nasceu a Travessa do Ferreiro, nome que ainda ecoa o passado laborioso deste lugar.
Hoje, a Portela guarda tudo isso: pedra, paisagem e memória — um espaço onde o tempo parece demorar mais a passar, como se Bucos quisesse preservar, ali, o coração da sua história.
Viagem por Bucos – Caminhos de Pedra, Água e Memória
Chegar a Bucos é entrar num território onde cada curva do caminho revela uma história, e cada pedra parece guardar a memória dos que ali viveram, trabalharam e rezaram. A viagem começa na Ponte da Pereira, majestosa na sua simplicidade, lançada com firmeza sobre o rio Peio. Ali, o murmúrio da água mistura-se com o correr das trutas que se deixam ver nas águas transparentes. É uma ponte de passagem e contemplação, onde a natureza conversa com o tempo.
Descendo lentamente, o caminheiro encontra os moinhos tradicionais, ainda vivos no seu labor antigo. As mós giram com o mesmo som que acompanhou gerações, transformando milho e centeio no pão que alimentou famílias inteiras. Entre o cheiro da farinha e o rumor constante da água, sente-se a sabedoria dos antepassados, que souberam domesticar a força do ribeiro para sustentar a aldeia.
Mais adiante surgem os espigueiros, alinhados como sentinelas das colheitas. As ripas de madeira e as bases de pedra contam histórias de trabalho, de verões quentes e de outonos fartos. São monumentos humildes, mas essenciais, que marcam a economia agrícola e o cuidado com a terra.
O coração espiritual da freguesia pulsa na Igreja de Bucos, erguida sobre o lugar de uma capela antiga. À sua volta, os túmulos de pedra gravam nomes e datas que se prolongam pela memória coletiva. A torre sineira ergue-se como guardiã da comunidade; o toque do sino ecoa pelos vales, chamando para a missa, marcando festas, despedidas ou simplesmente lembrando que o tempo segue o seu curso.
No caminho, surgem as casas históricas, cada uma com o seu caráter: paredes de granito, escadas exteriores que falam da vida rural. Entre as casas de Sanoane, ergue-se o Cruzeiro de Pedra, na encruzilhada. Ali, onde os caminhos se encontram, muitos deixaram preces silenciosas antes de seguir o seu destino. É um símbolo simples mas profundo, gravado no quotidiano da aldeia.
Continuando a subida, o viajante chega à Comunidade da Portela, pousada no alto de Bucos. Das suas casas, a vista abre-se sobre campos, muros de pedra e montes distantes. É um lugar de vizinhança forte, onde cada porta conhece quem passa, e onde a paisagem parece estender os braços para acolher quem chega.
Por fim, na praça de Balteiro, encontra-se o Nicho da Senhora dos Caminhos, construído em 1964. Pequeno, mas cheio de significado, protege viajantes e devotos, lembrando que Bucos sempre foi terra de passagens, de peregrinos, de gente em movimento mas sempre ligada às suas raízes.
Viajar por Bucos é percorrer séculos condensados em poucos quilómetros: água, pedra, fé, agricultura, comunidade.
É uma viagem exterior, mas sobretudo interior — onde cada passo ecoa histórias antigas, e cada olhar encontra a alma tranquila da terra.
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
Outono e Inverno em Bucos
Outono-Inverno em Bucos
Quando as folhas acobreadas começam a cair, surge uma quietude que embrulha a serra em aconchego. A névoa dança entre as casas de granito, e o som distante dos rebanhos ecoa como memória. No inverno, o frio afia os cheiros da lenha, e cada amanhecer parece uma promessa guardada na brancura do céu.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
A Casa de Sanoane de Cima
A História da Casa de Sanoane de Cima
Na encosta do outeiro de Bucos, onde o vento corre livre e a paisagem parece não ter pressa, ergue-se a Casa de Sanoane de Cima, uma casa antiga, marcada por séculos de passos, vozes e trabalho. Diz-se que ali, antes de haver janelas ou paredes, já havia lugar para a vida — porque a terra, naquela encosta, sempre teve um modo especial de acolher quem a procurava.
A casa nasceu simples, construída com madeira da serra e pedra arrancada ao próprio chão. Com o tempo, foi crescendo como crescem as árvores: primeiro um tronco firme, depois ramos, anexos, currais, eiras e varandas. Cada geração deixou-lhe algo — uma porta nova, uma parede mais forte, um celeiro melhor organizado, uma figueira na eira, uma cerejeira junto ao caminho.
E assim, aos poucos, a Casa de Sanoane de Cima tornou-se mais do que um lar: tornou-se um ponto de referência. Quem subia a ladeira reconhecia-a ao longe, com o seu telhado recortado contra o céu, e quem passava pela estrada sabia que ali vivia gente de trabalho, honesta e apegada à terra.
As suas divisões guardaram histórias de tudo: das ceifas ao amanho dos campos, das longas noites de inverno passadas à volta da lareira, das festividades do verão, dos cantares que enchiam o terreiro e das visitas que chegavam sempre acompanhadas do cheiro a pão quente.
Havia também as árvores da casa — cada uma com o seu papel. A figueira frondosa, que dava sombra e figos para todos, da raposa ao melro. A pereira centenária, teimosa e generosa, que dava peras cabo-de-sovela até ao seu último alento. A cerejeira, vaidosa em flor, que marcava a chegada das primeiras andorinhas e enchia o coração do Lourenço de alegria.
E, no centro de tudo, estava a família — as gerações que cresceram ali, que partiram e voltaram, que trabalharam a terra e cuidaram da casa com o respeito que se tem por algo sagrado. Cada parede guarda um segredo. Cada pedra conhece um nome. Cada árvore sabe uma história.
Com o tempo, a casa foi-se tornando também um ecomuseu familiar, um lugar onde a história se visita, onde a terra continua a contar o que viu e onde o passado conversa naturalmente com o presente. Quem ali entra sente que pisa chão antigo, mas vivo; chão que ensina, que acolhe e que guarda.
Hoje, a Casa de Sanoane de Cima continua de pé, firme como sempre esteve. Atravessou invernos duros e verões longos, viu gerações nascer e partir, ouviu risos, choros e cantigas.
E continua, silenciosa mas atenta, à espera de quem a saiba ouvir.
Porque a Casa de Sanoane de Cima não é apenas uma casa:
é uma presença, uma memória, um lugar onde o tempo não passa — apenas se transforma.
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
Bucos - A Figueira Centenária de Eira
A Figueira de Eira
(poema)**
Na casa antiga de Sanhoane de Riba
ergue-se a figueira centenária, altiva,
de copa larga, frondosa como sombra de agosto,
guardando memórias no silêncio do seu rosto.
Os seus figos brancos, doces de verão,
caem como bênçãos abertas à mão.
Figos para todos — ninguém fica sem provar:
o povo, a cria, quem chega e quem vai passar.
As vacas aproximam-se lentas, ruminando prazer,
as ovelhas farejam o fruto antes mesmo de o ver.
As galinhas ciscam, disputando cada migalha,
e até a raposa, na calada, vem fazer sua batalha.
O ouriço enrola o corpo, mas estende o desejo,
e do tronco antigo desce o lagarto num lampejo.
O melro canta primeiro, o estorninho vem depois,
o pardal faz pirraça — são donos antes de nós.
Porque os primeiros figos, sabe a gente,
são dos pássaros, guardiães eternos da semente.
E a figueira aceita, generosa, o ritual,
como quem entende o ciclo natural.
Assim vive, ano após ano, a figueira de eira,
mãe de frutos, sombra verdadeira.
Na Casa de Sanhoane, ninguém esquece o que ela dá:
vida, memória, e um céu de figos a brilhar.
domingo, 23 de novembro de 2025
Romance Popular Minhoto – O Custódio da Casa da Pereira
Romance Popular Minhoto – O Custódio da Casa da Pereira
Ouvi contar aos velhos de Bucos,
lá no sopé da Cabreira,
que nasceu um menino frágil
na antiga Casa da Pereira.
Diziam que era mês de maio,
quando o sol já desponta cedo,
mas que o tempo andava inquieto
e o coração da mãe — cheio de medo.
Era filho de doze irmãos,
e o destino, duro, não perdoava;
um a um partiam cedo,
e só a fé consolava.
Por isso, conta o romance,
que a mãe Maria, em desespero,
levou o filho ainda no ventre
até à Ponte da Pereira, primeiro.
Ali, com água do Peio,
e reza firme do padre do lugar,
foi Custódio abençoado,
como quem nasce antes de nascer,
para a vida poder enfrentar.
Cresceu menino de terra e mato,
de sopros frios e verões quentes.
Aprendeu cedo a ouvir o vento
e os segredos que traz às gentes.
Na escola pequena da aldeia,
com o professor Paulo Casalta a ensinar,
o rapaz mostrou brilho nos olhos
e talento pronto a brotar.
“É cabeça viva, este Custódio”,
dizia o mestre com satisfação.
“Quando pega num livro,
parece que pega no mundo com a mão.”
Mas no Minho a vida chama cedo,
e não se foge ao que se é.
A terra fala, o gado espera,
e o destino cumpre-se em pé.
E assim, feito moço de força,
Custódio desceu para o campo trabalhar:
a lavrar a terra escura,
a semear o pão do lar,
a criar gado barrosão,
orgulho velho de Bucos e do lugar.
Quem o via com os animais
dizia que tinha jeito nato,
que sabia ler as manhas do touro
como quem lê destino no trato.
O romance segue em frente,
como os dias que levam a vida,
e fala de Ana de Urjais,
mulher terna, alma tranquila.
Foi com ela que ele casou,
num domingo claro, ao toque do sino,
e voltaram juntos para a Pereira
onde começou o seu destino.
Da união de ambos brotaram
seis filhos, qual colheita forte:
Mara, a primeira flor;
Manuel, de olhar decidido;
Albano, ponderado
José, valente e destemido;
Fernando,sensato ;
e Alda, o laço bendito
que fecha o círculo da sorte.
Diz o romance que à noite,
quando o lume baixava de tom,
Custódio ficava calado,
mas o silêncio era bom.
Era silêncio de quem viveu,
de quem lutou, de quem amou,
de quem sabe que a terra fica
e o homem passa… mas deixou.
E assim, passaram-se décadas,
entre chuvas, neves, colheitas e pão,
e hoje quem por Bucos caminha
ainda sente a sua mão.
Num muro bem levantado,
num campo de verde inteiro,
no eco do barrosão ao longe,
no nome da Casa da Pereira.
Por isso o romance não morre,
nem deixa Custódio morrer.
Enquanto houver quem o lembre,
ele volta a acontecer.
E o povo que sabe cantar,
diz sempre com voz certeira:
“Homem bom fica na terra
como raiz verdadeira.”
Bucos - Biografia Familiar de Custódio Henriques Braz
Biografia Familiar de Custódio Henriques Braz
(Nasceu em maio de 1920 – faleceu em agosto de 1980) Casa da Pereira, Bucos
Custódio Braz nasceu em maio de 1920 na histórica Casa da Pereira, em Bucos, uma das casas antigas da aldeia, ligada às tradições agrícolas e ao quotidiano simples da vida de montanha. Filho de Maria Henriques Basto(s) e Manuel Braz Junior de uma família numerosa, Custódio cresceu num contexto típico das gentes do Minho, onde o trabalho duro, a solidariedade entre vizinhos e a fé marcavam o ritmo das estações.
Era um de doze irmãos, num tempo em que a sobrevivência infantil era incerta. Muitos dos seus irmãos faleceram ainda em tenra idade, deixando um peso silencioso sobre a família. Por isso, quando Maria se encontrava grávida de Custódio, temendo-se o pior, o bebé foi batizado ainda na barriga da mãe, num gesto de devoção e proteção realizado junto à simbólica Ponte da Pereira. Esse momento marcará para sempre a sua história familiar, tornando-se um episódio repetido com orgulho e emoção entre gerações.
Os primeiros anos de Custódio decorreram entre os campos, o gado e a paisagem agreste de Bucos. Frequentou a escola primária da aldeia, onde teve como professor Paulo Casalta, figura respeitada na comunidade. Desde cedo demonstrou ser um aluno brilhante, atento, curioso e dedicado, qualidades que refletiam o seu espírito trabalhador e a vontade de aprender, mesmo quando a vida no campo exigia tanto das crianças.
Com o passar dos anos, Custódio seguiu o caminho natural das gentes rurais: tornou-se agricultor e criador de gado barrosão, raça emblemática da região. O seu conhecimento da terra era profundo; sabia ler os sinais do tempo, cuidar das pastagens e tratar dos animais com uma sabedoria transmitida de geração em geração. Reconhecido pela sua honestidade e pelo caráter firme, era um homem de muitas histórias e de grande presença.
Casou com Ana de Oliveira Urjais, formando com ela um lar sereno e trabalhador na própria Casa da Pereira, preservando assim a continuidade familiar. Juntos criaram seis filhos:
Maria, Manuel, Albano, José, Fernando e Alda, a quem transmitiram valores sólidos — respeito, trabalho, fraternidade e ligação à terra.
A vida de Custódio Braz confunde-se com a história de Bucos no século XX. Através do seu percurso, revelam-se as dificuldades e as alegrias da vida rural minhota, o peso das tradições, a importância da família e o apego às raízes que caracterizam tantas gerações. O seu legado permanece vivo não apenas na memória dos filhos e descendentes, mas também na identidade da própria Casa da Pereira e no património humano da freguesia.
Homem simples, mas profundamente íntegro, Custódio Braz representa um modo de vida que moldou a região: o do trabalhador incansável, do pai dedicado e do guardião silencioso de uma cultura que resistiu ao tempo. A sua biografia é, por isso, mais do que a história de um homem — é a história de uma família, de uma casa e de uma comunidade inteira.
Biografia Familiar de Custódio Henriques Braz(Nasceu em maio de 1920 – faleceu em agosto de 1980) Casa da Pereira, BucosCustódio Braz nasceu em maio de 1920 na histórica Casa da Pereira, em Bucos, uma das casas antigas da aldeia, ligada às tradições agrícolas e ao quotidiano simples da vida de montanha. Filho de Maria Henriques Basto(s) e Manuel Braz Junior de uma família numerosa, Custódio cresceu num contexto típico das gentes do Minho, onde o trabalho duro, a solidariedade entre vizinhos e a fé marcavam o ritmo das estações.Era um de doze irmãos, num tempo em que a sobrevivência infantil era incerta. Muitos dos seus irmãos faleceram ainda em tenra idade, deixando um peso silencioso sobre a família. Por isso, quando Maria se encontrava grávida de Custódio, temendo-se o pior, o bebé foi batizado ainda na barriga da mãe, num gesto de devoção e proteção realizado junto à simbólica Ponte da Pereira. Esse momento marcará para sempre a sua história familiar, tornando-se um episódio repetido com orgulho e emoção entre gerações.Os primeiros anos de Custódio decorreram entre os campos, o gado e a paisagem agreste de Bucos. Frequentou a escola primária da aldeia, onde teve como professor Paulo Casalta, figura respeitada na comunidade. Desde cedo demonstrou ser um aluno brilhante, atento, curioso e dedicado, qualidades que refletiam o seu espírito trabalhador e a vontade de aprender, mesmo quando a vida no campo exigia tanto das crianças.Com o passar dos anos, Custódio seguiu o caminho natural das gentes rurais: tornou-se agricultor e criador de gado barrosão, raça emblemática da região. O seu conhecimento da terra era profundo; sabia ler os sinais do tempo, cuidar das pastagens e tratar dos animais com uma sabedoria transmitida de geração em geração. Reconhecido pela sua honestidade e pelo caráter firme, era um homem de muitas histórias e de grande presença.Casou com Ana de Oliveira Urjais, formando com ela um lar sereno e trabalhador na própria Casa da Pereira, preservando assim a continuidade familiar. Juntos criaram seis filhos:Maria, Manuel, Albano, José, Fernando e Alda, a quem transmitiram valores sólidos — respeito, trabalho, fraternidade e ligação à terra.A vida de Custódio Braz confunde-se com a história de Bucos no século XX. Através do seu percurso, revelam-se as dificuldades e as alegrias da vida rural minhota, o peso das tradições, a importância da família e o apego às raízes que caracterizam tantas gerações. O seu legado permanece vivo não apenas na memória dos filhos e descendentes, mas também na identidade da própria Casa da Pereira e no património humano da freguesia.Homem simples, mas profundamente íntegro, Custódio Braz representa um modo de vida que moldou a região: o do trabalhador incansável, do pai dedicado e do guardião silencioso de uma cultura que resistiu ao tempo. A sua biografia é, por isso, mais do que a história de um homem — é a história de uma família, de uma casa e de uma comunidade inteira.
A História da Igreja de São João Batista de Bucos
A História da Igreja de São João Batista de Bucos
Nos tempos antigos, quando Bucos ainda era apenas um pequeno casario aninhado entre montes, rios e caminhos de gado, existia na aldeia uma modesta capela pertencente à Casa de Sanhoane. Era uma capelinha simples, de chão frio em pedra granítica, onde ecoavam passos, rezas e memórias de séculos. ✨
Nessa época longínqua, Bucos não possuía ainda paróquia própria — pertencia à freguesia de São Nicolau. Assim, o pároco de S. Nicolau, depois das longas jornadas pelos montes da Cabreira, vinha celebrar missa à capela da Casa de Sanhoane, levando consigo a fé e a união da comunidade. Era ali que o povo se juntava para pedir proteção, agradecer colheitas e celebrar as suas devoções.
A Transformação da Capela em Igreja
Por volta de 1775, a capela já pequena para o fervor da aldeia começou a crescer. Fez-se o aumento, ergueram-se novas paredes e ampliou-se o espaço sagrado. A antiga capela tornou-se então numa autêntica igreja, passando a ser conhecida como Igreja de São João Batista de Bucos — o santo protetor que desde então guarda o vale e o seu povo. 🙏🕊️
No interior surgiram quatro altares laterais, ladeando o altar-mor herdado da capela primitiva, como que abraçando a tradição que ali sempre existira.
Dois tempos num só templo
A igreja ficou dividida em duas partes distintas, mas harmoniosas:
A parte antiga, correspondente à antiga capela, manteve o seu chão em pedra granítica, testemunha silenciosa das primeiras orações.
A parte nova, construída com elegância e devoção, recebeu uma curiosa abóbada de madeira em forma redonda, artisticamente decorada com a imagem de São João Batista ao centro, rodeado de traços pintados em folhas douradas que cintilam quando a luz entra ao fim da tarde ✨.
Também o chão desta área nova ficou dividido:
a continuação da pedra antiga e, além dela, o novo soalho de madeira, quente e acolhedor, onde os fiéis se ajoelham ao longo das gerações.
O Coro e o Púlpito
Lá fora, junto à fachada, ergueram-se escadas exteriores que dão acesso ao coro alto, construído em madeira, donde em tempos ecoavam cânticos e vozes que preenchiam a nave inteira.
Do coro vê-se o púlpito-oratório, colocado ao centro da igreja, lugar onde tantos sermões foram proclamados, tantas palavras de consolo foram dadas e tanta sabedoria pousou no coração do povo. 🎶📜
Assim nasceu e cresceu a Igreja de São João Batista de Bucos — não apenas um templo, mas um livro vivo, feito de pedra, fé e história, onde cada altar, cada prancha de madeira e cada degrau contam séculos de devoção, de família e de identidade da aldeia
terça-feira, 18 de novembro de 2025
História da Casa de Sanhoane de Riba
Uma História, uma Casa e uma Família
Há casas que não são apenas paredes. São raízes abertas na terra, ancoradas no tempo, erguidas pelo labor e pela memória de quem ali viveu. A Casa de Sanhoane é uma dessas casas — não apenas pedra sobre pedra, mas um livro antigo, escrito por gerações que passaram, deixaram marcas, e seguiram adiante para que outros pudessem continuar.
Dizem as memórias paroquiais que tudo começa, ou pelo menos começa a ser lembrado, com o casamento de Simão Delgado e Margarida Francisca, em 18 de junho de 1677. Ela surge descrita como “da Casa de Sanhoane”, como se a casa fosse parte do seu nome, da sua identidade, da sua própria pele. A casa já existia antes deles — talvez mais modesta, talvez mais rústica — mas é com esta união que ela entra na história escrita, que se fixa nos livros, que ganha rosto.
Simão morre em 1710 — e ali as escrituras silenciam o nome da casa. Mas não o apagam. No mesmo ano aparece António Delgado, “da Casa de Sanhoane”, a continuar a linhagem, como se a casa fosse um fôlego que passava de geração para geração, sempre vivo, sempre presente.
Por fora, a casa mantinha-se humilde e firme:
pedra granítica, eira ampla que refletia o sol das colheitas, alpendre que acolhia conversas e descanso, e a escadaria de vinte degraus que levava ao andar superior, onde as janelas observavam o mundo com a mesma paciência de quem espera que o tempo conte a sua história.
À frente, um cruzeiro, como tantos na serra, marcava a entrada — talvez um sinal de proteção, talvez um testemunho de fé, talvez apenas um ponto de encontro entre vivos e mortos, passado e futuro.
A sala, virada para a eira, era o coração da casa: era ali que se partilhava o pão, as histórias, as dificuldades e as alegrias. Ali se discutiam casamentos, colheitas, invernos rigorosos, e as idas e vindas de quem procurava trabalho longe. Nos quartos, duas janelas deixavam entrar o frio da serra e a claridade dos dias. Do hall, outra janela vigiava discretamente o alvorecer sobre Bucos.
Geração após geração, muitos passaram por aqueles degraus. Uns ficaram, outros partiram. Mas todos levaram consigo um pedaço da casa, e todos deixaram nela um pedaço de si.
Hoje, a Casa de Sanhoane continua — não apenas na pedra, mas na memória familiar, no orgulho de quem sabe de onde veio, e no esforço de preservar o que sempre foi mais do que património: foi e é identidade.
Poema – Custódio Braz, Filho da Ponte e da Pereira
Poema – Custódio Braz, Filho da Ponte e da Pereira
No coração de Bucos, onde o vento se deita
sobre a Serra da Cabreira como manto antigo,
nasceu Custódio Braz — menino de maio,
semente lançada ao mundo com cuidado e perigo.
A Casa da Pereira, firme entre pedras e séculos,
guardou o seu primeiro respirar,
como quem vela um tesouro frágil
no silêncio do lar.
Era de uma família de doze,
doze ecos na memória da mãe Maria,
mas o tempo, duro como geada de inverno,
levava seus irmãos antes do romper do dia.
Por isso, com temor e esperança,
ali mesmo à beira do rio,
junto à Ponte da Pereira,
onde o Peio murmura antigo frio,
foi dado o seu batismo ainda por nascer,
como quem pede aos céus:
“Deixai este filho viver.”
E viveu.
E cresceu como crescem as árvores que desafiam o vento,
com raízes firmes no chão e o olhar posto no firmamento.
Na escola de Bucos, de paredes simples e brancas,
teve por mestre Paulo Casalta, atento e profundo.
Ali, entre ardósia e cadernos gastos,
Custódio mostrou ao mundo
que a inteligência também floresce
onde há campo e solidão,
que a sabedoria dos humildes
tem a força de um trovão.
Foi aluno brilhante, desses que guardam silêncio
mas falam pela vontade e pelo gesto.
Entre letras, contas e sonhos de menino,
o futuro começava a tomar-lhe o peito e o resto.
Mas a terra chamava,
a terra sempre chama os seus.
E Custódio ouviu essa voz antiga
que vem do trabalho e dos céus.
Tornou-se homem dos campos,
arador de horizontes,
guardião de gado barrosão
que ecoava—forte—pelos montes.
Cada amanhecer era compromisso,
cada tarde era dever.
Lavrar, plantar, criar, sustentar:
era essa a sua forma de viver.
Havia dignidade no seu passo,
havia verdade no seu olhar.
Custódio Braz era desses homens
que não precisam de se mostrar:
bastava vê-lo trabalhar.
O destino trouxe-lhe Ana,
mulher de Urjais, doce e determinada,
e juntos ergueram um lar tranquilo
na mesma casa onde começou a jornada.
Daquela união brotaram seis filhos —
seis luzes que o tempo não apaga:
Maria, a primeira voz a historiadora;
Manuel, o caminhar firme da diplomacia;
Albano, a sensatez da segurança
José, o médico;
Fernando, o professor e agricultor;
e Alda, a engenheira, derradeira brisa que no coração se embala.
Na Casa da Pereira, cada riso, cada choro,
cada refeição partilhada,
era memória plantada no granito das paredes
e no lume que ardia na lareira encantada.
Custódio era homem de muitas histórias,
de palavra e belos gestos.
Sabia escutar o silêncio da terra,
sentir o peso do tempo honesto.
Na face marcada pelo sol,
via-se a história de quem conhece
a vida rude dos montes
e, ainda assim, agradece.
Hoje, quem atravessa Bucos e olha em redor
encontra rastos do seu labor:
num campo bem tratado,
num muro de pedra alinhado,
no mugir distante do barrosão,
no caminho batido ao coração.
Custódio Braz vive ainda ali,
entre memórias que não se desvanecem.
Vive nas mãos daqueles que dele descendem,
no orgulho que erguem,
nas histórias que tecem.
E quando o vento passa pela Ponte da Pereira,
há quem jure ouvir a vida inteira
a ecoar no murmúrio do rio —
como se a bênção daquele batismo primeiro
ainda guardasse o menino frágil
e o homem inteiro.
Assim se conta a história
de quem viveu sem ostentação,
mas deixou um legado tão profundo
que ainda hoje habita o chão.
Custódio Braz —
um nome simples, uma vida grande,
um homem que fez da terra um poema,
e da família, o seu estandarte.
Subscrever:
Comentários (Atom)