segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

A Casa de Sanoane de Cima

A História da Casa de Sanoane de Cima Na encosta do outeiro de Bucos, onde o vento corre livre e a paisagem parece não ter pressa, ergue-se a Casa de Sanoane de Cima, uma casa antiga, marcada por séculos de passos, vozes e trabalho. Diz-se que ali, antes de haver janelas ou paredes, já havia lugar para a vida — porque a terra, naquela encosta, sempre teve um modo especial de acolher quem a procurava. A casa nasceu simples, construída com madeira da serra e pedra arrancada ao próprio chão. Com o tempo, foi crescendo como crescem as árvores: primeiro um tronco firme, depois ramos, anexos, currais, eiras e varandas. Cada geração deixou-lhe algo — uma porta nova, uma parede mais forte, um celeiro melhor organizado, uma figueira na eira, uma cerejeira junto ao caminho. E assim, aos poucos, a Casa de Sanoane de Cima tornou-se mais do que um lar: tornou-se um ponto de referência. Quem subia a ladeira reconhecia-a ao longe, com o seu telhado recortado contra o céu, e quem passava pela estrada sabia que ali vivia gente de trabalho, honesta e apegada à terra. As suas divisões guardaram histórias de tudo: das ceifas ao amanho dos campos, das longas noites de inverno passadas à volta da lareira, das festividades do verão, dos cantares que enchiam o terreiro e das visitas que chegavam sempre acompanhadas do cheiro a pão quente. Havia também as árvores da casa — cada uma com o seu papel. A figueira frondosa, que dava sombra e figos para todos, da raposa ao melro. A pereira centenária, teimosa e generosa, que dava peras cabo-de-sovela até ao seu último alento. A cerejeira, vaidosa em flor, que marcava a chegada das primeiras andorinhas e enchia o coração do Lourenço de alegria. E, no centro de tudo, estava a família — as gerações que cresceram ali, que partiram e voltaram, que trabalharam a terra e cuidaram da casa com o respeito que se tem por algo sagrado. Cada parede guarda um segredo. Cada pedra conhece um nome. Cada árvore sabe uma história. Com o tempo, a casa foi-se tornando também um ecomuseu familiar, um lugar onde a história se visita, onde a terra continua a contar o que viu e onde o passado conversa naturalmente com o presente. Quem ali entra sente que pisa chão antigo, mas vivo; chão que ensina, que acolhe e que guarda. Hoje, a Casa de Sanoane de Cima continua de pé, firme como sempre esteve. Atravessou invernos duros e verões longos, viu gerações nascer e partir, ouviu risos, choros e cantigas. E continua, silenciosa mas atenta, à espera de quem a saiba ouvir. Porque a Casa de Sanoane de Cima não é apenas uma casa: é uma presença, uma memória, um lugar onde o tempo não passa — apenas se transforma.

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