domingo, 14 de dezembro de 2025

O Canastro da Casa de Sanoane de Cima e o Menino Fernando

Na Casa de Sanoane de Cima, entre muros antigos e caminhos de terra batida, havia um canastro grande, feito de madeira, feito por mãos sábias. Ficava em frente à parede da cozinha, cheirando a pão, a milho e a histórias guardadas. O menino Fernando gostava muito daquele canastro. Para os adultos, era apenas uma casa onde se guardavam espigas, broas e castanhas. Mas para Fernando, o canastro era um cofre de segredos. Todas as manhãs, antes de sair para brincar, Fernando espreitava lá para dentro. — Bom dia, senhor canastro — dizia em voz baixa. — Dormiste bem? O canastro rangia levemente, como se respondesse. Quando estava cheio, parecia orgulhoso; quando estava quase vazio, Fernando sentia que ele pedia paciência e esperança. Num outono generoso, o milho chegou dourado e abundante. O canastro foi enchido até à borda, e Fernando ajudou, levando espigas pequenas com muito cuidado. A cada espiga colocada, sentia que estava a guardar o fruto do trabalho da família. Nos dias frios de inverno, quando o vento assobiava nas frestas da casa, Fernando sentava-se perto do canastro. Imaginava que lá dentro viviam grãos mágicos que protegiam a casa da fome e do medo. O canastro era como um guardião silencioso. Certa vez, a farinha começou a faltar. Fernando viu o canastro quase vazio e ficou triste. Então lembrou-se do que o avô dizia: — Enquanto houver partilha, o canastro nunca fica verdadeiramente vazio. E assim foi. A família dividiu o pouco que tinha, e na primavera seguinte a colheita voltou a encher o canastro, mais bonito e forte do que antes. Fernando cresceu, mas nunca esqueceu aquele canastro da Casa de Sanoane de Cima. Aprendeu com ele que guardar é importante, mas partilhar é ainda mais. E dizem que, até hoje, o velho canastro sorri sempre que uma criança se aproxima com respeito e carinho.

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