segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Bucos - A Figueira Centenária de Eira

A Figueira de Eira (poema)** Na casa antiga de Sanhoane de Riba ergue-se a figueira centenária, altiva, de copa larga, frondosa como sombra de agosto, guardando memórias no silêncio do seu rosto. Os seus figos brancos, doces de verão, caem como bênçãos abertas à mão. Figos para todos — ninguém fica sem provar: o povo, a cria, quem chega e quem vai passar. As vacas aproximam-se lentas, ruminando prazer, as ovelhas farejam o fruto antes mesmo de o ver. As galinhas ciscam, disputando cada migalha, e até a raposa, na calada, vem fazer sua batalha. O ouriço enrola o corpo, mas estende o desejo, e do tronco antigo desce o lagarto num lampejo. O melro canta primeiro, o estorninho vem depois, o pardal faz pirraça — são donos antes de nós. Porque os primeiros figos, sabe a gente, são dos pássaros, guardiães eternos da semente. E a figueira aceita, generosa, o ritual, como quem entende o ciclo natural. Assim vive, ano após ano, a figueira de eira, mãe de frutos, sombra verdadeira. Na Casa de Sanhoane, ninguém esquece o que ela dá: vida, memória, e um céu de figos a brilhar.

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