terça-feira, 18 de novembro de 2025

Poema – Custódio Braz, Filho da Ponte e da Pereira

Poema – Custódio Braz, Filho da Ponte e da Pereira No coração de Bucos, onde o vento se deita sobre a Serra da Cabreira como manto antigo, nasceu Custódio Braz — menino de maio, semente lançada ao mundo com cuidado e perigo. A Casa da Pereira, firme entre pedras e séculos, guardou o seu primeiro respirar, como quem vela um tesouro frágil no silêncio do lar. Era de uma família de doze, doze ecos na memória da mãe Maria, mas o tempo, duro como geada de inverno, levava seus irmãos antes do romper do dia. Por isso, com temor e esperança, ali mesmo à beira do rio, junto à Ponte da Pereira, onde o Peio murmura antigo frio, foi dado o seu batismo ainda por nascer, como quem pede aos céus: “Deixai este filho viver.” E viveu. E cresceu como crescem as árvores que desafiam o vento, com raízes firmes no chão e o olhar posto no firmamento. Na escola de Bucos, de paredes simples e brancas, teve por mestre Paulo Casalta, atento e profundo. Ali, entre ardósia e cadernos gastos, Custódio mostrou ao mundo que a inteligência também floresce onde há campo e solidão, que a sabedoria dos humildes tem a força de um trovão. Foi aluno brilhante, desses que guardam silêncio mas falam pela vontade e pelo gesto. Entre letras, contas e sonhos de menino, o futuro começava a tomar-lhe o peito e o resto. Mas a terra chamava, a terra sempre chama os seus. E Custódio ouviu essa voz antiga que vem do trabalho e dos céus. Tornou-se homem dos campos, arador de horizontes, guardião de gado barrosão que ecoava—forte—pelos montes. Cada amanhecer era compromisso, cada tarde era dever. Lavrar, plantar, criar, sustentar: era essa a sua forma de viver. Havia dignidade no seu passo, havia verdade no seu olhar. Custódio Braz era desses homens que não precisam de se mostrar: bastava vê-lo trabalhar. O destino trouxe-lhe Ana, mulher de Urjais, doce e determinada, e juntos ergueram um lar tranquilo na mesma casa onde começou a jornada. Daquela união brotaram seis filhos — seis luzes que o tempo não apaga: Maria, a primeira voz a historiadora; Manuel, o caminhar firme da diplomacia; Albano, a sensatez da segurança José, o médico; Fernando, o professor e agricultor; e Alda, a engenheira, derradeira brisa que no coração se embala. Na Casa da Pereira, cada riso, cada choro, cada refeição partilhada, era memória plantada no granito das paredes e no lume que ardia na lareira encantada. Custódio era homem de muitas histórias, de palavra e belos gestos. Sabia escutar o silêncio da terra, sentir o peso do tempo honesto. Na face marcada pelo sol, via-se a história de quem conhece a vida rude dos montes e, ainda assim, agradece. Hoje, quem atravessa Bucos e olha em redor encontra rastos do seu labor: num campo bem tratado, num muro de pedra alinhado, no mugir distante do barrosão, no caminho batido ao coração. Custódio Braz vive ainda ali, entre memórias que não se desvanecem. Vive nas mãos daqueles que dele descendem, no orgulho que erguem, nas histórias que tecem. E quando o vento passa pela Ponte da Pereira, há quem jure ouvir a vida inteira a ecoar no murmúrio do rio — como se a bênção daquele batismo primeiro ainda guardasse o menino frágil e o homem inteiro. Assim se conta a história de quem viveu sem ostentação, mas deixou um legado tão profundo que ainda hoje habita o chão. Custódio Braz — um nome simples, uma vida grande, um homem que fez da terra um poema, e da família, o seu estandarte.

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