domingo, 23 de novembro de 2025

Romance Popular Minhoto – O Custódio da Casa da Pereira

Romance Popular Minhoto – O Custódio da Casa da Pereira Ouvi contar aos velhos de Bucos, lá no sopé da Cabreira, que nasceu um menino frágil na antiga Casa da Pereira. Diziam que era mês de maio, quando o sol já desponta cedo, mas que o tempo andava inquieto e o coração da mãe — cheio de medo. Era filho de doze irmãos, e o destino, duro, não perdoava; um a um partiam cedo, e só a fé consolava. Por isso, conta o romance, que a mãe Maria, em desespero, levou o filho ainda no ventre até à Ponte da Pereira, primeiro. Ali, com água do Peio, e reza firme do padre do lugar, foi Custódio abençoado, como quem nasce antes de nascer, para a vida poder enfrentar. Cresceu menino de terra e mato, de sopros frios e verões quentes. Aprendeu cedo a ouvir o vento e os segredos que traz às gentes. Na escola pequena da aldeia, com o professor Paulo Casalta a ensinar, o rapaz mostrou brilho nos olhos e talento pronto a brotar. “É cabeça viva, este Custódio”, dizia o mestre com satisfação. “Quando pega num livro, parece que pega no mundo com a mão.” Mas no Minho a vida chama cedo, e não se foge ao que se é. A terra fala, o gado espera, e o destino cumpre-se em pé. E assim, feito moço de força, Custódio desceu para o campo trabalhar: a lavrar a terra escura, a semear o pão do lar, a criar gado barrosão, orgulho velho de Bucos e do lugar. Quem o via com os animais dizia que tinha jeito nato, que sabia ler as manhas do touro como quem lê destino no trato. O romance segue em frente, como os dias que levam a vida, e fala de Ana de Urjais, mulher terna, alma tranquila. Foi com ela que ele casou, num domingo claro, ao toque do sino, e voltaram juntos para a Pereira onde começou o seu destino. Da união de ambos brotaram seis filhos, qual colheita forte: Mara, a primeira flor; Manuel, de olhar decidido; Albano, ponderado José, valente e destemido; Fernando,sensato ; e Alda, o laço bendito que fecha o círculo da sorte. Diz o romance que à noite, quando o lume baixava de tom, Custódio ficava calado, mas o silêncio era bom. Era silêncio de quem viveu, de quem lutou, de quem amou, de quem sabe que a terra fica e o homem passa… mas deixou. E assim, passaram-se décadas, entre chuvas, neves, colheitas e pão, e hoje quem por Bucos caminha ainda sente a sua mão. Num muro bem levantado, num campo de verde inteiro, no eco do barrosão ao longe, no nome da Casa da Pereira. Por isso o romance não morre, nem deixa Custódio morrer. Enquanto houver quem o lembre, ele volta a acontecer. E o povo que sabe cantar, diz sempre com voz certeira: “Homem bom fica na terra como raiz verdadeira.”

Sem comentários:

Enviar um comentário