sexta-feira, 10 de abril de 2026

Conclusão do Livro Gentes de Bucos

Chegar ao fim de “As Gentes de Bucos – Homens do Pau e Mulheres da Lã” não é encerrar uma história, mas compreender que ela continua viva, todos os dias, nos gestos, nos caminhos e na memória de quem aqui permanece. Bucos não é apenas um lugar — é um modo de estar, um equilíbrio entre o homem e a natureza, entre o passado herdado e o futuro que se constrói com consciência.Ao longo destas páginas, revelaram-se vidas moldadas pela serra, pela força das águas, pelo silêncio dos montes e pelo calor das comunidades. Os homens do pau e as mulheres da lã simbolizam mais do que práticas: representam saberes que resistem, identidades que se afirmam e uma cultura que se recusa a desaparecer. São expressão de um património vivo, feito de disciplina, trabalho, criatividade e partilha.As casas, os espigueiros, os moinhos e os pisões permanecem como marcas de uma arquitetura de sobrevivência, lembrando que cada pedra colocada teve um propósito, cada estrutura nasceu da necessidade e da inteligência humana. A igreja e o cruzeiro continuam a reunir a comunidade, enquanto a casa da lã e o jogo do pau mantêm acesa a chama da tradição.Na serra, o ouro não se mede em riqueza material, mas na abundância da natureza: no ar puro, nas águas limpas, nos trilhos que convidam à descoberta e nos pores do sol que suspendem o tempo. É neste cenário que a vida se desenrola com autenticidade, onde o desporto, as caminhadas e o contacto com a terra reforçam uma ligação essencial ao mundo natural.E, como sempre, tudo converge para a mesa. Aí, os sabores contam histórias, os produtos da terra ganham vida e a partilha transforma o alimento em comunhão. Comer é também lembrar, celebrar e perpetuar.Esta conclusão é, na verdade, um recomeço. Um convite a preservar, valorizar e dar continuidade a tudo aquilo que faz de Bucos um lugar singular. Porque enquanto houver quem pratique, quem ensine, quem conte e quem sinta, as gentes de Bucos continuarão a existir — firmes, entre a tradição e o tempo, tecendo o futuro com os fios do passado. HOMENAGENS Homenagem a Custódio Henriques Braz, Ana de Oliveira Urjais e à Casa da Pereira Falar de Custódio Henriques Braz e de Ana de Oliveira Urjais é evocar duas vidas profundamente enraizadas na terra, na tradição e na identidade de Bucos, Cabeceiras de Basto. É, ao mesmo tempo, prestar tributo à Casa da Pereira, espaço físico e simbólico onde se cruzam memórias familiares, trabalho árduo e continuidade cultural ao longo de gerações. Ana de Oliveira Urjais (1922–2010) representa, de forma exemplar, a alma feminina da serra — resiliente, guardiã de saberes e elo entre o passado e o futuro. Nascida a 11 de novembro de 1922, na Casa do Anelho, na aldeia da Touça, cresceu num ambiente onde o ritmo da vida era ditado pela terra e pelas estações. Filha de António Urjais e de Joaquina de Oliveira, trouxe consigo, ao longo da vida, o legado de uma ruralidade autêntica e profundamente enraizada.Após o casamento com Custódio Henriques Braz, integrou-se na Casa da Pereira, onde desempenhou um papel central não apenas como esposa e mãe de seis filhos, mas também como depositária das tradições locais. A sua participação no Rancho Folclórico “As Capuchinhas de Bucos” é prova viva do seu compromisso com a preservação da cultura serrana — desde o uso da capucha de burel aos cantares ancestrais das desfolhadas e do pisar das uvas. Ana foi, assim, uma verdadeira guardiã da memória coletiva, num tempo em que o mundo rural começava a transformar-se rapidamente.Custódio Henriques Braz (1920–1980) surge como o retrato do homem da Serra da Cabreira do século XX: forte, determinado e profundamente ligado à terra. Nascido numa família numerosa — sendo o 13.º filho de Maria Henriques Basto e Manuel Braz Júnior — cresceu num contexto onde o trabalho, a entreajuda e a resistência eram valores fundamentais.A sua educação com o Professor Paulo Casalta revela uma dimensão menos visível, mas igualmente importante: o apreço pela aprendizagem, num tempo em que o acesso à instrução era limitado. Essa combinação de saber prático e conhecimento básico distinguiu-o no meio rural.Fisicamente imponente, Custódio destacou-se também como praticante do Jogo do Pau, uma tradição que ultrapassa o simples desporto para se afirmar como expressão de honra, defesa e identidade cultural. Nas feiras e romarias, como a de S Miguel, ou de São Bartolomeu e Sra do Rosário esta arte ganhava vida — e Custódio era um dos seus dignos representantes.Ao assumir a condução da Casa da Pereira e ao dedicar-se à agropecuária, garantiu a continuidade de um modelo de vida baseado no equilíbrio entre o homem e a natureza. A criação de gado, o cultivo da terra e a gestão dos recursos fizeram dele um verdadeiro patriarca, respeitado pela comunidade e exemplo de uma geração que soube preservar o essencial.A Casa da Pereira, por sua vez, é mais do que um edifício em granito — é um testemunho vivo da história de Bucos. Inserida numa paisagem moldada pelo trabalho humano ao longo de séculos, representa a arquitetura rural típica da Serra da Cabreira e simboliza o centro de uma economia familiar agro-pastoril. As suas raízes remontam a tempos antigos, possivelmente já referenciados nas Inquirições de D. Afonso III,1253, revelando a importância histórica da região.Neste espaço, cruzam-se gerações, histórias e vivências. Foi ali que Ana e Custódio construíram a sua vida, criaram a sua família e perpetuaram valores que ainda hoje ecoam na comunidade.Recordá-los é reconhecer a importância daqueles que, com trabalho silencioso e dedicação constante, mantiveram vivas as tradições, a cultura e a identidade de um povo. É homenagear não apenas duas pessoas, mas toda uma forma de vida que marcou profundamente Bucos.Que a memória de Ana de Oliveira Urjais e de Custódio Henriques Braz permaneça como exemplo de dignidade, resiliência e amor à terra. E que a Casa da Pereira continue a ser símbolo desse legado — firme, autêntico e intemporal. Homenagem a Custódio Henriques Braz (1920 – 1980) Filho da Casa da Pereira, Bucos. Nas terras altas de Bucos, onde o vento traz histórias antigas e o rio Peio murmura memórias, nasceu em maio de 1920 um homem cuja vida deixaria marca profunda na aldeia: Custódio Braz, da Casa da Pereira. Cresceu entre montes, rios, campos e tradições, numa família numerosa e marcada pela dureza dos tempos. Era um de doze irmãos, muitos deles partidos cedo demais — tanto que o pequeno Custódio foi batizado ainda na barriga da mãe, Maria, num acto de fé realizado junto à Ponte da Pereira, onde a vida e a esperança se encontravam nas margens do rio Peio. Foi aluno da escola primária de Bucos, onde o professor Paulo Casalta rapidamente reconheceu o seu talento: Custódio era um aluno brilhante, dedicado, curioso e disciplinado, atributos que levaria consigo para toda a vida. Ligado profundamente às raízes da terra, seguiu o caminho dos que conhecem o valor do sol, da chuva e das estações. Tornou-se agricultor e criador de gado barrosão, guardião de uma raça que representa a força e a identidade do Minho e da Serra da Cabreira. O seu trabalho era um testemunho silencioso de resistência, amor à terra e dignidade. Casou com Ana, de Urjais, e juntos construíram um lar na mesma Casa da Pereira que o viu nascer. Deste amor nasceram seis filhos: Maria, Manuel, Albano, José, Fernando e Alda, que carregam consigo o legado do pai — o valor da simplicidade, a força do trabalho e a nobreza de caráter. Custódio Braz pertence àqueles homens que não precisam de monumentos para serem lembrados. A sua memória está nas terras que lavrou, nas pedras da casa onde viveu, na ponte onde foi abençoado antes mesmo de nascer, e sobretudo nas vidas que tocou com a sua bondade serena. Foi um homem da terra, da família e da fé — e é assim, com respeito e gratidão, que Bucos e os seus descendentes lhe prestam homenagem: a Custódio Braz, homem de coragem, de silêncio firme e de grande coração.

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